publicado em 4 de novembro de 2011 às 17:29 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
Por Iroel Sánchez

Cine Teatro Dos Barrageiros, aonde aconteceu o 1º Encontro Mundial de Blogueiros. Foto. Manuel Henríquez Lagarde
É madrugada na sala de espera do aeroporto de Foz do Iguaçu e um ponto de venda de livros me chama a atenção. Entre os best-sellers do momento – incluindo duas biografias de Steve Jobs – um livro com capa tipográfica (letras negras sobre fundo vermelho) ocupa o lugar de maior destaque, seu título Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais; entre o nome do volume e o do autor, há uma oração que anuncia o tema: “A história dos agentes infiltrados por Cuba em organizações de extrema-direita nos Estados Unidos”.
Me sinto afortunado, um exemplar do livro de Morais viaja com minha bagagem rumo a Cuba, presenteado por Sergio Bertoni, o blogueiro do Paraná, que moderou o painel “Experiências na América Latina” durante o 1º Encontro Mundial de Blogueiros, no qual acabo de participar em Foz, junto a acadêmicos, ativistas e editores vindos da Argentina, Equador eHonduras. Várias perguntas afloraram, no debate do painel, sobre o caso dos cinco cubanos que ainda permanecem nos Estados Unidos – quatro deles presos, entretanto –, incluindo uma proveniente de um blogueiro que é médico graduado na Escola Latino-americana de Medicina em Cuba, e na resposta pude falar sobre como o governo norte-americano utilizou os meios de comunicação – em troca de dinheiro – para condicionar um resultado judicial contra pessoas cujo único delito foi tratar de evitar atos terroristas. Um bom exemplo, sem dúvidas, de como opera a informação no mundo em que vivemos.

Painel "Experiências na América Latina" no Encontro Mundial de Blogueiros, moderado por Sergio Bertoni, tercerio de esquerda para a direita. Foto: Manuel Henríquez Lagarde
Se no painel inaugural do evento Ignacio Ramonet havia afirmado, com razão, que ser blogueiro não é sinônimo de ser rebelde e que pode haver – e de fato exitem – blogueiros reacionários que servem ao poder midiático e econômico, o que percebi nas discussões entre os mais de 400 participantes reunidos nas instalações da hidrelétrica de Itaipu (a segunda maior do mundo) foi um estado de rebelião global contra os monopólios midiáticos.

Blogueiro árabe Ahmed Al Omran fala no painel "experiências na Ásia e África", do Encontro Mundial de Blogueiros. Foto Manuel Henríquez Lagarde
Como resenhou Jillian York, do Conselho de Administração do Global Voices, o encontro de Foz do Iguaçu “conseguiu reunir um grupo muito interessante de pessoas de toda a América Latina e do mundo, e deve ser felicitado”. Escutar pessoas provenientes do Egito e Arábia Saudita contarem suas experi~encias no enfretamento à censura, assistir o vídeo trazido pelo paquistanês Farhan Janjua, sobre a evolução das redes sociais em seu país, ou o de Jesse Freeston sobre a repressão a jornalistas em Honduras – onde morreram 15 pessoas por conta do golpe de Estado contra Manuel Zelaya – ajudou a completar uma visão plural do uso de novos meios. Em particular Freeston, de origem canadense, mas que viveu na América Central, abordou um conceito de “homo interneticus”, um termo empregado por alguns antropólogos para descrever as pessoas que já não encontram maneira de fazer algo fora da Internet, e frente a isso ele destacou o valor da palavra “ocupar”: “ocupar é uma palavra muito importante”, disse Freeston, a diferença do ciberativismo, como é impossível “cibercomer”, “ocupar” implica sair fisicamente à realidade. Sobre Occupy Wall Street, Andrés Conteris, do Democracy Now En Español, também deu um importante depoimento.

Andrés Conteris, do Democracy Now, fala no Encontro Mundial de Blogueiros, à sua esquerda, Pascual Serrano. Foto: Manuel Henríquez Lagarde
Na mesma linha de Freeston, Pascual Serrano, do Rebelión, apontou com precisão, no painel sobre experiências na Europa e nos Estados Unidos: “se observarmos, as supostas revoluções apoiadas nas redes sociais não promoveram mudanças significativas na estrutura de poder, nem nos países árabes, nem na Europa ou Estados Unidos. São mudanças “lampedusianas”, que se transforma algo para que tudo continue igual. Como disse o professor Ramón Reig, existe um êxtase cibernético de caráter místico no ocidente – eu adicionaria que também na América Latina –, que mitifica as redes e as novas tecnologias para encomendar, a elas, às revoluções”.

Jesse Freeston no Primeiro Encontro Mundial de Blogueiros. Foto: Sergio Bertoni
No painel sobre as experiências brasileiras, a democratização dos meios de comunicação ocupou um papel central. No fechamento do evento, Jesse Chacón, o ex-ministro das Comunicações na Venezuela, Damián Loreti, membro da comissão que redigiu a lei de meios de comunicação na Argentina, e Blanca Josales, secretária de Comunicação do Peru, abordaram as respectivas políticas de seus países nesse campo.
A Carta de Foz do Iguaçu, aprovada no Encontro, além de condenar as ações dos Estados Unidos contra Cuba, para limitar seu acesso à Internet, coloca como a primeira das prioridades “a luta pela liberdade de expressão, que não se confunde com a liberdade propagada pelos monopólios midiáticos, que castram a pluralidade informativa”. Olho o livro de Morais sobre Os Cinco e leio na contracapa: “uma trama desbordante jamais revelada pela imprensa”, e penso que nada é casual neste mundo, onde – como reza o título de um bom livro – o jornalismo é notícia.
Publicado em La Pupila Insomne e CubAhora
publicado em 3 de novembro de 2011 às 15:19 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
por João Brant – Observatório do Direito à Comunicação
“Se tivéssemos feito esse encontro há cinco anos, estaríamos falando do Myspace”. A afirmação de Ignacio Ramonet durante o I Encontro Mundial de Blogueiros, realizado em Foz do Iguaçu entre os dias 27 e 29 de outubro, queria lembrar os participantes da rapidez das mudanças dos últimos anos. Talvez não fosse preciso ir tão longe. Um encontro mundial de blogueiros em 2010 seria uma boa oportunidade para discutir como as corporações tentam quebrar a neutralidade de rede ou como alguns países censuram blogueiros que se opõem a regimes autocráticos. Debate interessante para ativistas mais envolvidos e interessados, sem mais.
Em 2011, depois da explosão do Wikileaks, praça Tahrir, praça da Porta do Sol e Kasbah, o cenário é outro. A discussão sobre blogueiros, redes sociais e o papel da internet está no centro do debate político, e o conflito de perspectivas apocalípticas e integradas revela mais do que ceticismo e paixão. O encontro promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e pela Altercom, que agrupa pequenos empreendedores da comunicação, reuniu cerca de 450 pessoas de 23 países, e espelhou bem essas diferentes perspectivas.
A visão cética de alguns ativistas que afirmam veementemente que a luta se dá nas ruas, e não nas redes, foi contrastada com um outro segmento que vê na internet a realização de ideais libertários e ela própria realizadora de uma democracia radical. Em meio a uma escala de opiniões com muitos tons de cinza, ativistas egípcios, sauditas e paquistaneses mostraram, sem precisar muito explicar, que, na disputa política real, essa polarização é o que menos importa.
Os exemplos politizados não vieram só do mundo árabe. O perfil majoritário dos participantes, em sua maioria latino-americanos, era de ativistas por transformação e justiça social, ressaltando uma ligação de internet e política que já é dada como natural, mas talvez não o fosse na era do MySpace.
Ocupas, occupy
Num campo em que as eras são contadas de cinco em cinco anos, um ano pode ser praticamente considerado o equivalente a um período geológico. Nesse cenário, poucos são os que se arriscam a fazer grandes previsões, sob o risco de serem lembrados como jurássicos já em 2012. A precaução em não fazer muitas previsões concretas deixa espaço para análises mais subjetivas, em que coabitam os que preferem ver o copo meio cheio e os que destacam sua parte meio vazia. Na mesa em que debateram, Andrés Thomas Conteris, do site norte-americano Demcracy Now e Pascual Serrano, do espanhol Rebelión, assumiram essas duas facetas.
Serrano não poupou a mobilização da Praça da Porta do Sol para destacar um caráter precário dos movimentos gerados pelas redes sociais. “Que profundidade analítica, que elaboração intelectual, que discussão política há nesses espaços?” A tese de Serrano é de que há um caráter místico e triunfalista na relação com a internet que atrapalha a análise política. “Até agora, essas mobilizações não produziram verdadeiras mudanças nas estruturas de poder”, completou o espanhol.
Editor da página em espanhol do Democracy Now, Andrés Thomas Conteris assumiu exatamente a perspectiva criticada por Serrano. Ele tomou como inspiração o movimento Ocuppy Wall Street para dizer que há uma ligação entre mobilizações virtuais e mobilizações reais que permite trazer à tona os pontos de vista dos 99% da população que não estão entre os 1% que concentram o poder econômico. “O movimento de ‘occupy’ está indo onde está o silêncio”, disse Conteris. Para ele, a internet tem um enorme papel nisso, e se relaciona com esses movimentos de ocupação pelos seus valores: transparência, independência, constância, democracia participativa, horizontalidade e contexto global. “Temos de tomar esses pontos como referência para nossa atuação na comunicação”, propôs.
Por não deixar de reconhecer o papel de democratização da informação e o potencial transformador da Internet, Serrano afirmou que os mais críticos a uma visão triunfalista não devem se afastar da rede. “Devemos nos incorporar para poder mudá-la”. O problema, segundo ele, é que há uma simplificação das mensagens ideológicas e políticas e um risco de construir um jornalismo que não seja suficientemente rigoroso e analítico e não dê atenção ao contexto. “As novas gerações não querem ouvir falar de reportagens, só fazem leituras curtas”, apontou, preocupado.
Conteris preferiu destacar a possibilidade desses movimentos em trazer mudanças profundas nos EUA e no mundo. A retomada de um processo de mobilização global, para ele, traz a oportunidade de que venham à tona as histórias que não são contadas e as perspectivas que não aparecem na velha mídia, o que daria espaço a uma verdadeira democracia. “A ‘electocracia’ que temos hoje não tem a ver com democracia real”.
A velha mídia e a velha política
Falsa ou não, a polarização entre os céticos e os otimistas desaparece quando o assunto é a velha mídia. “Esses monopólios transformaram a liberdade de expressão e o direito à informação num privilégio”, apontou Serrano. Desta vez em uníssono, Conteris destacou que “a velha mídia só fala pelo 1%, não reflete os outros 99%”.
O jornalista e blogueiro brasileiro Luís Nassif preferiu um olhar histórico na tentativa de explicar o lugar da grande mídia. “Temos uma história de movimentos pendulares de alternância de poder entre forças constituídas. Nesse processo, os meios de comunicação sempre representam o poder anterior”, afirmou. Nassif destaca como os jornais abriram mão da eficiência estratégia da objetividade jornalística. “Quando a linguagem tem essa cara, você ganha mais credibilidade. Mas os jornais viraram os mais agressivos”, observou. “Hoje o grande propagador de intolerância é a velha mídia”, diz Nassif. Ignacio Ramonet destacou a crise de identidade da velha mídia. “Os meios tradicionais não sabem muito bem para que existem”, afirmou o criador do Le Monde Diplomatique.
Ainda sobre o lugar dos meios tradicionais, em diversas falas do encontro, transpareceu a ideia de que o poder da velha mídia está caduco e de que sua derrocada seria um fato positivo que dependeria apenas de tempo. Essa visão parte da ideia de que os sites, blogs e redes sociais já teriam autonomia e suficiente capacidade de produção própria de informação. Martin Becerra, argentino, pesquisador de políticas de comunicação, contestou essa visão. Para ele, as redes sociais têm agenda subsidiária dos grandes meios comerciais, que ainda são, em suas versões tradicionais ou eletrônicas, as principais fontes de informação primária.
A principal preocupação de Becerra é com dois riscos trazidos pelo triunfalismo da internet. O primeiro é o que ele chama de risco metonímico. “Algumas pessoas acreditam que a temperatura da sociedade está bem medida pelas redes sociais, mas não dá para traduzir o todo por essa parte”, disse. O segundo risco vem do fato de que blogs e redes sociais tendem a agrupar aqueles que pensam parecido. O problema aí é que essa configuração tende a expulsar daquele espaço os que não têm acordo básico com determinados grupos, e criar uma forte homogeneidade interna. “Em termos de pluralismo, isso cria um perigo real. A existência atomizada de muitos blogs que reagem aos que pensam diferente pode criar ilusão de que na sociedade há pluralismo, mas essa ilusão debilita muito a noção de pluralismo”, completou Becerra.
Com a mesma preocupação, Nassif reconhece a importância da militância da Internet, mas afirma a necessidade de reconhecer o surgimento dos mediadores, diferentes daqueles da velha mídia. “Os mediadores de todos os campos vão pegar aquele conjunto de informações e tentar estabelecer áreas de democratização, com confronto de ideias, mas sem a selvageria”. Para ele, é preciso entender o processo de formação da opinião pública para se compreender como as novas mídias podem disputar espaço com a velha. “O que define o poder da mídia é a capacidade de multiplicar estereótipos e slogans”, disse. O jornalista explica que esse processo se dá por círculos – informações de intelectuais e formadores de opinião são processadas pelo jornalismo especializado, que influencia jornalistas mais populares que alcançam os formadores de opinião nas famílias. “O risco aí é que o leitor médio só absorve a manchete, o que pode criar o efeito manada, em que o grande público acompanha a posição de meia dúzia de líderes de opinião sem uma reflexão crítica”, destaca.
Enquanto isso, no Cairo
A despeito da repercussão do verão espanhol e do outono em Wall Street, foi a primavera árabe que assistiu à integração mais potente entre a mobilização das ruas e as estratégias de mobilização virtual. O relato de Ahmed Bahgat, blogueiro e ativista digital egípcio, foi uma prova de que a integração entre a luta das ruas e a luta das redes tende a fortalecer as duas. Bahgat narrou as inúmeras estratégias assumidas desde 2005 para tentar furar o bloqueio do governo de Mubarak, que se articularam com slogans, ideias, cartoons e vídeos que ganhavam as ruas.
As condições históricas de falta de democracia, de liberdade, de justiça e altas taxas de desigualdade geravam um quadro insustentável havia anos, mas a ligação em rede dos cidadãos egípcios deu condições para que o processo de revolta eclodisse a partir de alguns fatos detonadores. Bahgat mostrou a integração das estratégias, o que torna difícil tentar separar a mobilização nas ruas da mobilização virtual.
A inspiração chegava a ser direta. No processo de ocupação das ruas do Cairo, os ativistas adotaram sinais baseados nas interfaces digitais. “Nas manifestações, inspirados no twitter, cada um tinha 140 segundos para falar. Inspirados no Facebook, os participantes reagiam com sinais de ‘curtir’ feito com as mãos”, contou Bahgat. Assim como na rede social, não havia sinais de descurtir. “O que indicava a desaprovação era o silêncio”, diz. O reconhecimento das interfaces com as redes sociais não o fez afirmar que o que se passou no Egito foi uma revolução do twitter ou do facebook, mas para ele não há dúvida de que a mobilização virtual fortaleceu as condições de derrubada do regime Mubarak.
Seria um erro, contudo, isolar a análise das tecnologias de seu contexto geopolítico, com bem exemplifica o caso saudita. “Na Arábia Saudita, temos condições históricas parecidas com o Egito e a Tunísia, mas estamos falando de um país muito rico e com muito petróleo”, disse o blogueiro Ahmed Al Omran. Na prática, a instabilidade naquela região afeta diretamente toda geopolítica mundial. “Não à toa, a Arábia buscou parar a revolução ali dentro, mas também interferiu diretamente em outras manifestações na região, como foi o caso do Bahrein”, afirmou Al Omran.
Democracia exclusiva
As arbitrariedades do mundo árabe são ilustrativas, mas estão longe de resumir as exclusões que afetam o potencial transformador da rede. Uma das organizações que sentiu isso na pele no último ano foi o Wikileaks. Seu porta-voz, o islandês Kristinn Hrafnsson, descreveu o caso como um ataque violento das corporações e dos governos ocidentais à liberdade de expressão e ao direito à informação. “Não fomos condenados por nenhum crime em nenhuma jurisdição, mas sofremos represálias e perseguições de corporações e governos”, contestou.
A organização interrompeu suas atividades para fazer uma campanha de captação de recursos. O Wikileaks prevê que precise de 3,2 milhões de dólares para o ano de 2012, boa parte disso para abrir processos em várias jurisdições contra as instituições financeiras que impedem o recebimento de recursos pela organização. “Mastercard, Visa, PayPal e Western Union permitem que você transfira dinheiro do tráfico de drogas, doe para a Ku Klux Klan ou pague por pornografia infantil, mas não que você doe ao Wikileaks”, constatou Hrafnsson.
Para ele, contudo, o problema maior é político. “A mídia está mais interessada em transformar o Julien Assange em celebridade e em falar do fato de as informações terem vazado do que propriamente no conteúdo dos vazamentos”, ressaltou. “O problema é que, sem transparência, democracia é uma palavra vazia”, disse o porta-voz do Wikileaks.
De fato, modelos democráticos podem ser extremamente excludentes. Um elemento de exclusão evidente se dá pelas diferentes condições de acesso à rede, bastante desigual entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, e internamente a esses países. Outro aspecto é o problema das diferentes condições de cada cidadão em processar as informações recebidas. Ignacio Ramonet assinala que esses são dois motivos para reconhecer o caráter limitado dessa democracia digital. “Não se pode falar em democracia digital se permanece viva uma espécie de voto censitário, em que não são todas as pessoas que têm o estatuto de cidadão. E mesmo se todos tiverem acesso à informação, não significa que democratizamos o conhecimento”, lembrou Ramonet.
Em meio a prognósticos mais ou menos otimistas, a maior convergência do encontro foi a identidade entre aqueles que estão experimentando e buscando cotidianamente gerar transformação por meio da atuação nas redes, blogs e sites. Pelo reconhecimento dessa identidade, foi formada uma comissão internacional com pessoas de todos as regiões do globo, que vai preparar o próximo encontro, em novembro de 2012, também em Foz do Iguaçu. Alguém se arrisca a dizer quais serão os temas em debate daqui a um ano?
Observação: a análise geopolítica feita durante o encontro e pelo jornalista brasileiro Pepe Escobar, que escreve para o Asian Times, daria um texto à parte. Vale pelo menos assistir sua avaliação sobre o caso da Líbia .
publicado em 2 de novembro de 2011 às 18:37 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
O painel sobre experiências da blogosfera na América Latina, ocorrido no último sábado (29), no Encontro Mundial de Blogueiros, tratou do papel das mídias sociais e dos blogs nos crescentes processos de luta pela democratização da comunicação na região. Iroel Sánchez, de Cuba; Osvaldo Leon, do Equador; Martín Becerra e Martín Granovsky, da Argentina, e o canadense Jesse Freeston, foram os palestrantes da mesa.

A discussão, mediada pelo blogueiro paulista Cido Araújo e o paranaense Sergio Bertoni, tratou do papel das mídias sociais e dos blogs nos crescentes processos de luta pela democratização da comunicação. Becerra, professor da Universidad Nacional de Quimes, e León, editor da Agência Latino-Americana de Informação (Alai) no Equador, comentaram que a Argentina vive um período de liderança devido à Ley dos Medios, que criou um avançado marco regulatório para a comunicação. “Essa é uma pauta que esteve esquecida pelas esquerdas latinas durante algum tempo, mas que voltou à agenda e que ganha força com a regulamentação argentina”, afirma León.
A blogosfera e a mídia alternativa foram os temas predominantes nas falas dos palestrantes. Para León, o crescimento dessa esfera representa as demandas, cada vez maiores, por democracia real. “Os meios alternativos têm um forte caráter anti-hegemônico e as novas tecnologias fazem parte desse contexto. Elas têm sido apropriadas por esses meios e vinculadas aos movimentos sociais”. Para o equatoriano, esse quadro tem sido fundamental na luta por democratização da comunicação.
Sanchéz, autor do blog La Pupila Insomne e colaborador do sítio CubaDebate, acredita que é preciso ser crítico com a ideia de que Internet garante democracia. Segundo ele, “há muitos países com Internet e sem democracia alguma”. A blogosfera, para o cubano, mostra o que a grande mídia varre para debaixo do tapete e tem o desafio de atrair cada vez mais pessoas à rede.
Becerra pondera que, apesar de a mídia alternativa questionar a posição dos grandes grupos de comunicação, fortemente concentrados, devem atentar para não cometer o mesmo erro que eles: “os veículos tradicionais possuem opiniões uniformes, muito semelhantes. O que devemos evitar é que existam muitos blogs alheios à dissidência, criando ilusão de que há pluralismo”. Em sua opinião, os meios alternativos adotam a mesma agenda que a grande imprensa, mas dão uma abordagem superior. “Nesse sentido, se formos capazes de criar pautas e uma agenda de interesse público, creio que deveremos nos questionar se a grande imprensa ainda será necessária”.
Para Granovsky, editor do periódico argentino Página 12, a blogosfera exerce um papel muito importante na comunicação. “A blogosfera e as redes sociais dão condições de mais participação no debate público e político”, diz. Ele ainda comenta que as pretensões da mídia alternativa devem ser ainda maiores: “ser alternativo não é ficar à margem, mas enfrentar os grandes meios informando e pautando com qualidade”.
Um dos debatedores mais jovens do Encontro Mundial de Blogueiros, o canadense Jesse Freeston contou sua experiência recente no movimento Occupy Montreal e falou da sua participação na luta por Direitos Humanos em Honduras, na ocasião da derrubada do presidente Manuel Zelaya. Para Freeston, “o movimento de ocupação de Montreal representa uma sólida prática de democracia real”, sendo que, em sua opinião, “devemos, sim, utilizar as mídias sociais para debatermos e até nos mobilizar, mas há uma certa ilusão e supervalorização dessas ferramentas”, opina.
Freeston exibiu trecho de seu minidocumentário sobre a conivência da imprensa hondurenha com a truculência do governo de Pepe Lobo, após eleições consideradas ilegítimas por mais da metade do povo hondurenho. No vídeo, jornalistas que se posicionaram contra o novo governo são perseguidos e, em alguns casos, assassinados pelos militares, em cenas que lembram as ditaduras militares da América do Sul. Para Freeston, é essencial que a imprensa seja pautada em ideias de justiça e democracia, e a mídia alternativa tem construído esse caminho.
Para os debatedores, apesar de a blogosfera ter muitos desafios, a sua atuação na luta contra o monopólio da informação e a concentração dos meios de comunicação marca o fim da hegemonia desses veículos. Além disso, na América Latina, essa luta vive um momento de efervescência, muito devido à atuação da mídia alternativa e às mudanças políticas que vêm acontecendo na região.
publicado em 1 de novembro de 2011 às 18:12 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
Por Adriana Delorenzo/Revista Fórum
Blogueiros, “twiteiros”, “facebookeiros”, ativistas, militantes, jornalistas, estudantes e professores de comunicação estiveram presentes para debater as novas mídias em Foz de Iguaçu (PR). A cidade, que faz fronteira com Paraguai e Argentina, foi a sede do 1º Encontro Mundial de Blogueiros, que reuniu 468 participantes de 23 países e 17 estados brasileiros.
A diversidade foi a marca do encontro, que abordou o papel da internet e as novas mobilizações articuladas pela rede, como o “Ocuppy Wall Street” e a Primavera Árabe. A troca de experiências tão diferentes foi um dos principais pontos positivos do evento, na opinião de Ignácio Ramonet, criador do Le Monde Diplomatique e autor de vários livros sobre comunicação.
Com um balanço positivo do encontro, Ramonet destacou ainda a importância da aprovação da carta final e da continuidade do movimento. “A carta dá um sentido ao encontro, que tem um propósito de política comunicacional, como uma dimensão fundamental para uma sociedade mais progressista e mais avançada”, disse.
O documento aprovado no último dia, no auditório da Itaipu, traz em seu texto a luta pela liberdade de expressão e pela pluralidade informativa e contra qualquer tipo de censura e perseguição política, a defesa do acesso à banda larga universal e a neutralidade na rede e de marcos regulatórios que garantam uma comunicação democrática e plural, entre outros pontos, que fizeram parte dos debates.
Em relação ao marco regulatório de comunicação, foi sentida a ausência do ministro Paulo Bernardo, que não enviou representante. A última mesa do encontro reuniu a ministra da área do Peru, Blanca Josales, o ex-ministro da Venezuela, Jesse Chacón, e o integrante que elaborou a “Ley de Medios” na Argentina, Damian Loreti.
Chácon ressaltou que a comunicação deve ser vista como um direito humano e questionou quem controla as tecnologias de informação hoje. “Revolução tecnológica e informacional não é sinônimo de revolução social”, afirmou. Já o argentino relatou como se deu o processo de regulamentação em seu país, com ampla participação da sociedade civil, que debate em audiência pública as concessões de rádio e TV.
Blanca anunciou que, em junho de 2012, o Peru irá promover o Encontro de Blogueiros da América Latina. Antes disso, em maio, haverá o 3º Encontro Nacional em Salvador (BA). E, ainda, serão realizados diversos encontros estaduais. As etapas nos estados reuniram cerca de três mil pessoas em 18 blogprog, como ficou conhecido. O Nacional foi realizado em Brasília, em junho, reunindo aproximadamente 500 pessoas presencialmente e 37 mil assistindo pela internet.
Romper o silêncio
Um dos debates presentes nos encontros é o papel da internet para as transformações sociais. Para Andrés Thomas Conteris, do Democracy Now, em espanhol, atualmente há um novo tipo de jornalismo, que vai onde está o silêncio. “Somos parte de uma comunidade mundial que se compromete em informar de outra maneira que não as das rádios e veículos dominantes”, disse.
Somente com as novas tecnologias, foi possível que o argentino Martin Granovsky, do jornal Página 12, contasse como os jornalistas dos veículos tradicionais brasileiros fizeram a cobertura da entrega do título de doutor honoris causa ao ex-presidente Lula. Segundo ele, ficou claro o preconceito da mídia brasileira, que “não aceita a Senzala ter chegado à Casa Grande”, em referência ao livro de Sérgio Buarque de Holanda. Granovsky divulgou na internet a pergunta da jornalista do jornal O Globo que questionou por que não conceder o título ao ex-presidente FHC, mas a Lula, que sequer curso superior possui. No dia, a hashtag #porquenaofhc ficou entre os principais assuntos do Twitter.
Fatos como esse mostram o poder da internet para compartilhar informações. “Se houvesse blogosfera em 2009 talvez tivéssemos conseguido barrar a eleição de Collor em 1989”, afirmou Leandro Fortes, jornalista da revista Carta Capital e editor do blog Brasília eu vi. Ele destacou casos recentes desmascarados pela internet, como o caso da bolinha de papel que atingiu o candidato à presidência José Serra no ano passado. Fortes ainda ressaltou como as redes sociais alteraram a relação do leitor com o jornalista, o que, para ele, pode ser positivo, mas a “velha mídia” está se afastando disso.
Na opinião de Altamiro Borges, presidente do Centro de Estudos Barão de Itararé, a “comunicação só vai avançar se o movimento social se apropriar dessa causa”. Joaquim Palhares, da Altercom, que junto com o Barão realizou o encontro, afirmou que os veículos dominantes têm muitos espaços na sociedade para defender seus interesses. Mas o 1º Encontro Mundial de Blogueiros mostrou que o movimento social pela democratização da comunicação está crescendo.
publicado em 29 de outubro de 2011 às 21:18 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
O primeiro Encontro Mundial de Blogueiros aconteceu entre os quinta-feira (27) e sábado (29), na cidade de Foz do Iguaçu. Diversos palestrantes e dirigentes de mesa debateram experiências relacionadas à blogosfera e redes sociais, incluindo Ignacio Ramonet, criador do Le Monde Diplomatique, Kristinn Hrafnsson, porta-voz do Wikileaks e o jornalista Luis Nassif. O evento teve cerca de 650 pessoas envolvidas e recebeu 468 participantes.
Como resultado, foi aprovada de forma unânine, por 23 países, uma carta para registrar os encaminhamentos do encontro. Abaixo, você pode ler a versão em português, espanhol e inglês do documento.
Carta de Foz do Iguaçu
O 1º Encontro Mundial de Blogueiros, realizado em Foz do Iguaçu (Paraná, Brasil), nos dias 27, 28 e 29 de outubro, confirmou a força crescente das chamadas novas mídias, com seus sítios, blogs e redes sociais. Com a presença de 468 ativistas digitais, jornalistas, acadêmicos e estudantes, de 23 países e 17 estados brasileiros, o evento serviu como uma rica troca de experiências e evidenciou que as novas mídias podem ser um instrumento essencial para o fortalecimento e aperfeiçoamento da democracia.
Como principais consensos do encontro – que buscou pontos de unidade, mas preservando e valorizando a diversidade –, os participantes reafirmaram como prioridades:
- A luta pela liberdade de expressão, que não se confunde com a liberdade propalada pelos monopólios midiáticos, que castram a pluralidade informativa. O direito humano à comunicação é hoje uma questão estratégica;
- A luta contra qualquer tipo de censura ou perseguição política dos poderes públicos e das corporações do setor. Neste sentido, os participantes condenam o processo de judicialização da censura e se solidarizam com os atingidos. Na atualidade, o WikiLeaks é um caso exemplar da perseguição imposta pelo governo dos EUA e pelas corporações financeiras e empresariais;
- A luta por novos marcos regulatórios da comunicação, que incentivem os meios públicos e comunitários; impulsionem a diversidade e os veículos alternativos; coíbam os monopólios, a propriedade cruzada e o uso indevido de concessões públicas; e garantam o acesso da sociedade à comunicação democrática e plural. Com estes mesmos objetivos, os Estados nacionais devem ter o papel indutor com suas políticas públicas.
- A luta pelo acesso universal à banda larga de qualidade. A internet é estratégica para o desenvolvimento econômico, para enfrentar os problemas sociais e para a democratização da informação. O Estado deve garantir a universalização deste direito. A internet não pode ficar ao sabor dos monopólios privados.
- A luta contra qualquer tentativa de cerceamento e censura na internet. Pela neutralidade na rede e pelo incentivo aos telecentros e outras mecanismos de inclusão digital. Pelo desenvolvimento independente de tecnologias de informação e incentivo ao software livre. Contra qualquer restrição no acesso à internet, como os impostos hoje pelos EUA no seu processo de bloqueio à Cuba.
Com o objetivo de aprofundar estas reflexões, reforçar o intercâmbio de experiências e fortalecer as novas mídias sociais, os participantes também aprovaram a realização do II Encontro Mundial de Blogueiros, em novembro de 2012, na cidade de Foz do Iguaçu. Para isso, foi constituída uma comissão internacional para enraizar ainda mais este movimento, preservando sua diversidade, e para organizar o próximo encontro.
Carta de Foz de Iguazú
El Primer Encuentro Mundial de Blogueros, realizado en Foz de Iguazú (Paraná, Brasil), en los días 27, 28 y 29 de octubre, confirmó la fuerza creciente de los llamados nuevos medios, con sus sitios, blogs y redes sociales. Con la presencia de 23 activistas digitales, periodistas, académicos y estudiantes, de 23 países y 17 estados barsileños, el evento sirvió como un rico intercambio de experiencias y evidenció que los nuevos medios pueden ser un instrumento esencial para el fortalecimiento de la democracia.
Como principales consensos del encuentro -que buscó puntos de unidad, mas preservando y valorizando la diversidad-, los participantes reafirmaron como prioridades:
– La lucha por la libertad de expresión, que no se confunde con la libertad propalada por los monopolios ,mediáticos, que castran la pluralidad informativa. El derecho humano a la comunicación es hoy una cuestión estratégica
- La lucha contra cualquier tipo de censura o persucución política de los poderes públicos y de las corporaciones del sector. En este sentido, los participantes condenan el proceso de legalización de la censura y se solidarizan con los afectados. En la actualidad, Wikileaks es un caso ejemplar de persecución impuesta por el gobierno de los EUA y por las corporaciones financieras y empresariales;
- La lucha por nuevos marcos regulatorios de la comunicación, que incentiven los medios públicos y comunitarios; impulsen la diversidad y los vehículos alternativos; limiten los monopolios; la propiedad mixta y el uso indebido de concesiones públicas; y garanticen el acceso a la sociedad de la comunicación democrática y plural. Con estos mismos objetivos, los estados nacionales debnen tener un papel inductor con sus políticas públicas;
- La lucha por el acceso universal a banda ancha de calidad. La Internet es estratégica para el desarrollo económico, para enfrentar los problemas sociales y para la democratización de la información. El Estado debe garantizar la universalidad de este derecho. La Internet no debe estar a merced de los monopolios privados;
- La lucha contra cualquier tentativa de cercenamiento y censura en Internet. Por la neutralidad de la Red y por el incentivo a infocentros y otros mecanismos de inclusión digital. Por el desarrollo independiente de tecnologías de la información y el incentivo al software libre. Contra cualquier restricción en el acceso a Internet, como las impuestas hoy por los EUA en su proceso de bloqueo a Cuba
Con el objetivo de profundizar estas reflexiones, reforzar el intercambio de experiencias y fortalecer los nuevos medios sociales, los participantes tambien aprobaron la realización de un II Encuentro Mundial de Blogueros, en noviembtre de 2012, en la ciudad de Foz de Iguazú. Para eso fue constituida una comisión internacional para afianzar todavía más este movimiento, preservando su diversidad, y para organizar el próximo encuentro.
(Traducción de La pupila insomne)
Letter of Foz do Iguaçu (English)
The First World Bloggers Meeting, in October 27, 28 and 29, in Foz do Iguaçu (PR, Brazil), has confirmed the growing strength of the new media, with websites, blogs and social networks. With 468 activists, journalists, academics and students, from 23 countries and 17 Brazilian states, the event made possible a rich experience exchange and pointed out that the new media can be used as an essential tool to strengthen and improve democracy.
The main consensus of the meeting – which sought points of unity, while preserving and valuing diversity – participants reaffirmed as a priorities:
- The struggle for freedom of expression, not to be confused with freedom touted by the media monopolies, for they reduce the plurality of information. The human right to communication is now a strategic issue;
- The fight against any kind of censorship or political persecution from public authorities and corporations. In this regard, participants condemned the legalization process of censorship and demonstrated solidarity with those affected. Today, Wikileaks is a case of persecution imposed by the United States government and financial corporations;
- The struggle for new regulatory frameworks of communication which encourage public and community media; boost diversity and alternative vehicles; restrain monopolies, cross ownership and misuse of public concessions, and ensure society access to democratic and pluralistic communication. With these same goals, the national states should take a role as inductors with their public policies;
- The struggle for universal access to quality broadband. The Internet is strategic for economic development, to address social problems and the democratization of information. The State shall ensure the universalization of this right. The Internet cannot be at the mercy of private monopolies;
- The fight against any attempt to curtail and censor the Internet. For net neutrality and the incentive to telecentres and other mechanisms for digital inclusion. The independent development of information technologies and incentive to free software. Against any restrictions on Internet access, such as taxes today by the U.S. in the process of blockade against Cuba;
In order to further develop these ideas, strengthen the exchange of experiences and strengthen the new social media, the participants also approved the implementation of the II World Bloggers Meeting in November 2012, in Foz do Iguaçu. For this, an international commission was formed to further entrench this movement, preserving its diversity, and to organize the next meeting.
Traduzido por Tatiane Pires (tatianeps.net)
publicado em 29 de outubro de 2011 às 19:12 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
O último debate do 1° Encontro Mundial de Blogueiros explorou o tema da regulamentação dos meios de comunicação na América do Sul e a luta por liberdade de expressão. Sem a presença do ministro das Comunicações Paulo Bernardo, a mesa foi composta por Damian Loreti, membro da comissão que elaborou o projeto da Ley de Medios na Argentina; Blanca Josales, secretária de redes sociais do governo do Peru e Jesse Chacón, ex-ministro das Comunicações na Venezuela. Os palestrantes discutiram os contextos da comunicação em seus países e as perspectivas de consolidação da democracia a partir do direito à comunicação.

Loreti ressaltou que a vitória da regulamentação dos meios na Argentina teve uma forte participação da sociedade civil. “Houve uma grande demanda da população para que essa lei fosse construída e aprovada. Foram mais de 15 anos para elaborarmos e conquistarmos a democratização dos meios”. Segundo Loreti, a Ley de Medios argentina foi construída com consensos na sociedade e diálogo com o governo.
Dentre as mudanças trazidas pela regulamentação, destaca-se a desmonopolização: o atual limite de licenças para exploração dos serviços audiovisuais é de 24. Cada empresa poderá ter dez concessões em TV aberta ou a cabo, no máximo. Durante a exposição, Loreti mostrou o documento Radiodifusión democrática – 21 Puntos Por El Derecho a La Comunicación, criado em 2004, que fundamenta o projeto de lei dos meios aprovado.
Sobre a defasagem do Brasil em relação aos outros países sulamericanos, nesse processo de democratização, Chacón salienta que é necessário ter uma atitude firme e urgente. Para ele, “é questão de o governo querer bancar esse custo político ou não”. Chacón e Loreti criticaram o argumento da grande imprensa – e predominante nas empresas de jornalismo brasileiras – de que regulamentar a mídia é censurá-la. “Essa é uma interpretação completamente distorcida da lei de meios. Estabelecer parâmetros democráticos e que garantam liberdade de expressão não pode ser chamado de censura”, diz Loreti.

Chacón apresentou um trabalho sobre as políticas da Venezuela quanto à comunicação e Internet, colocando em questão ideia de descentralização do poder na rede. “As redes sociais são plataforma para o dissenso e para a revolução? O Facebook tirou do ar uma convocatória de mobilização estudantil que lutava contra a privatização da educação”. Para Chacón, “atrás de toda a arquitetura informacional, há uma estrutura de poder”. Ele ressalta que revolução tecnológica e informacional não é revolução social e aprofunda a exploração, a exclusão e a dependência.
O ex-ministro das Comunicações venezuelano ainda comentou que a experiência que teve em seu país mostra o papel dos movimentos sociais e do governo na gestão das redes. “A Internet deve ser uma grande biblioteca para troca de vivências e conhecimentos”.
A peruana Blanca Josales, por sua vez, lembrou de um tema pouco abordado no Encontro Mundial de Blogueiros: o uso político e eleitoral das mídias sociais. Segundo ela, a campanha do presidente Ollanta Humala, então candidato, investiu na comunicação via redes sociais e estabeleceu contato direto com os eleitores. “Apesar da vitória na eleição, é preciso pensar no uso desses canais de comunicação durante o governo também”, afirma.
Ela aproveitou para anunciar o Encontro Latino-Americano de Comunicadores Digitais, a acontecer em julho de 2012, em Lima, no Peru. O evento deverá ter organização do Barão de Itararé e da Altercom.
O debate encerrou o ciclo de painéis do evento, contribuindo e subsidiando a discussão da regulamentação dos meios no Brasil. Além disso, foi possível conhecer experiências de países vizinhos, que compartilham historicamente a concentração e o monopólio, mas que deram um passo importante para a democratização da comunicação.
publicado em 28 de outubro de 2011 às 19:07 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
As experiências da mídia alternativa e de manifestações políticas nos Estados Unidos e na Europa foram tema de debate na tarde desta sexta-feira (28), no 1° Encontro Mundial de Blogueiros, em Foz do Iguaçu. Os palestrantes foram o espanhol Pascual Serrano, criador do site Rebelión, e Andrés Thomas Conteris, estadunidense, criador do Democracy Now En Español.

Mediados por Renata Mielli, do Barão de Itararé, e Altino Machado, blogueiro do Acre, os dois jornalistas falaram sobre suas experiências recentes e de suas perspectivas em relação à chamada web 2.0. Para eles, há diferentes maneiras de enxergar manifestações como a Primavera Árabe, a revolta dos indignados, na Espanha, ou o movimento Occupy Wall Street, nos Estados Unidos.
Enquanto Conteris mostra entusiasmo com a rede de resistência que se espalha pelo globo, Serrano crê que falta consistência a esses movimentos. Conteris diz nunca ter visto um movimento tão forte e significativo como as ocupações em Wall Street e outras localidades nos Estados Unidos, e que esses atos somam-se a muitos outros, que se conectam em rede. “Os aspectos mais interessantes desses movimentos são a perseverança, a independência e a horizontalidade”, afirma.
Conteris menciona que, apesar de incipientes e não terem um plano sólido de ação, os movimentos exprimem a insatisfação de “99% das pessoas” e têm demonstrado um compromisso impressionante com suas propostas. “O trunfo dessas manifestações, em minha opinião, é o fato de já nascerem com a ideia de serem permanentes”, comenta.

Já Serrano acredita que esses movimentos não são suficientes para atingir transformações profundas. “As supostas revoluções virtuais não promoveram verdadeiras mudanças no poder”, diz. Em contraste à opinião de Conteris, o espanhol ainda afirma que a sociedade tem vivido um “êxtase cibernético”, que têm dado uma certa “mística” às redes sociais e blogosfera. “Essas ferramentas catalisam processos sociais, mas também me pergunto se não empobrecem a reflexão intelectual e política em suas mensagens curtas e instantâneas”, diz. Para o espanhol, porém, “é necessário incorporar algo que não gostamos para poder transformá-lo”.
O futuro do jornalismo e da imprensa alternativa
Serrano conta que ajudou a criar o Rebelión em 1996, quando as fontes de mídia alternativa eram escassas. 11 anos depois, ele enxerga a página como uma agência de notícias com projeção global de conteúdo e vê a mídia alternativa com muito mais credibilidade e força: “no começo, havia muita insegurança quanto à credibilidade, por exemplo. Mas foram surgindo blogueiros e jornalistas que se tornaram referência e respaldaram a imprensa alternativa”.
Para Serrano, é necessário lutar por políticas públicas de comunicação, que sejam democráticas e justas. “Devemos denunciar o monopólio dos grandes meios, que calam os outros grupos sociais. A mídia alternativa só crescerá se superarmos a estrutura mercantil da comunicação”, afirma.
Na opinião do espanhol, é imprescindível formar e qualificar a nova geração de jornalistas, sob um parâmetro humanista e democrático. Para isso, ele frisa que “as redes e a tecnologia precisam estar a serviço desse jornalismo e não das grandes empresas e seus interesses privados”. Conteris ressalta que o papel da mídia alternativa é “ir aonde o silêncio está”. Mais que isso, o jornalista do Democracy Now afirma que é preciso criar eco nesses locais.
Tanto pela divergência quanto pelas opiniões compartilhadas, os dois palestrantes protagonizaram um rico debate, que agregou reflexão crítica à discussão sobre a mídia alternativa e os movimentos sociais, tanto nos Estados Unidos e na Europa, quanto em uma perspectiva global.
publicado em 28 de outubro de 2011 às 15:19 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias

A Mesa foi composta por Kristinn Hrafnsson, Ignácio Ramonet e Luis Nassif, coordenada por Natalia Viana e Tatiene Pires.
Kristinn Hrafnsson, porta-voz do Wikileaks; Ignácio Ramonet, o criador do Le Monde Diplomatique; e o jornalista e blogueiro Luis Nassif debateram sobre o papel das novas mídias na primeira mesa do 1º Encontro Mundial de Blogueiros, que teve início nesta quinta-feira (27) e segue até sábado (29) na Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR).
Enquanto o porta-voz do Wikileaks relatou a experiência da organização com a mídia tradicional e apontou a importância de uma ação integrada com os blogs, Ignácio Ramonet falou das possibilidades e limites das novas mídias e Luis Nassif pautou a importância da informação de qualidade para a guerra de informações na qual os blogueiros se inserem.

Kristinn Hrafnsson: “Vocês blogueiros e nós do Wikileaks estamos de mãos dadas, em poucos anos o futuro será definido e nós precisamos fazê-lo com transparência”. (Foto: Debora Teixeira/ClickFoz)
Wikileaks não morreu
Kristinn Hrafnsson iniciou desmentindo as notícias de que o Wikileaks estaria prestes a acabar. Ele disse que a organização suspendeu suas atividades para concentrar esforços em levantar fundos frente ao boicote promovido pelas empresas Visa, Mastercard, Paypal e Bank of America. Mas ele garante que as ações do Wikileaks serão retomadas.
O finlandês se disse decepcionado com a mídia tradicional pelas tentativas de supressão de informações e existência de censura interna, além de relação muito próxima aos governos. Kristinn diz que não esperava, por exemplo, que uma potência como o The New York Times, jornal que veiculou o escândalo de Watergate na época de Nixon, se dobraria diante de um pedido da Casa Branca de não publicação de histórias, como aconteceu. Ele relatou ainda sobre a recusa dos jornais de denunciarem práticas como esta, mesmo que o veículo a ser denunciado não disputasse público por ser em outro país, por exemplo.
Para Kristinn, é evidente a existência de uma lacuna entre o público e a confiança na mídia, algo constatado desde uma das primeiras ações do grupo, com a divulgação dos “Diários de Guerra do Afeganistão”. Para ele, uma ação conjunta do Wikileaks com blogueiros pode ser uma resposta eficaz à sociedade. “Wikileaks e blogueiros devem atuar de mãos dadas, quero que tenhamos a oportunidade de trabalhar juntos, pois sabemos que essa lacuna existe”.

“Estamos em um sistema efêmero que não tem vocaçao para estar estabilizado”, Ignácio Ramonet (Foto: Debora Teixeira / ClickFoz)
Ramonet: luzes e sombras
O teórico da comunicação e criador do Le Monde Diplomatique, Ignácio Ramonet, abordou o que ele próprio chamou de “luzes e sombras” do papel dos novos meios. O francês afirmou que já não é possível fazer jornalismo desconsiderando os novos meios e os novos atores que surgem com a utilização destes. Em seguida, listou as principais consequências que identifica a partir da utilização das novas mídias.
Entre as luzes, que seriam os aspectos positivos, Ramonet avalia que os veículos tradicionais vivem uma crise e, ainda, que os Estados autoritários já não podem controlar a circulação de informação, de forma que os cidadãos podem se organizar utilizando a internet – o exemplo dado pelo palestrante foram as recentes manifestações no norte da África. Ele avalia como positiva ainda a substituição da figura do jornalista como herói solitário pela produção de informação a diversas mãos, com uma estratégia de “enxame” que caracteriza a blogosfera, como ele define. “A inteligência coletiva é superior à proeza individual”, concluiu Ignácio Ramonet.
Quanto às sombras, ou seja, os aspectos a respeito dos quais se deve refletir, o intelectual alerta que o momento que vivemos é transitório. Ele lembra que há cinco anos não existiam Twitter, Facebook, i-phone, tablet e Wikileaks, por exemplo. “É certo que blogueiros, twitteiros, serão cada vez mais importantes. Mas não sabemos como o Estado e as empresas de comunicação se organizarão para retomar um poder que perderam”.
Para Ignácio Ramonet, o momento de mudança que vive a comunicação é comparável ao surgimento da imprensa com Gutemberg, que foi um elemento importante em grandes mudanças sociais do período, como o surgimento do protestantismo, ou de novas formas de Estado, entre outras. “Alterações nos campos estruturais da comunicação sempre refletem em campos gerais da sociedade”, alertou o teórico.
Ele afirmou ainda que o trabalho voluntário de milhões de blogueiros contribui para o enriquecimento de grandes conglomerados, citando o Google e o Facebook como exemplos. Por fim, falou sobre a característica de dispersão e fragmentação da informação que marca a blogosfera, para concluir: “o jornalismo não pode ser eliminado”, justificando que o papel do jornalismo deve ser o de dar sentido geral às coisas, a fim de “melhor compreender o mundo, para melhor participar dele”.
Nassif e a mídia do capital financeiro
Luis Nassif completou o debate ao focar a relação da imprensa com o capital financeiro no Brasil. Ele fez um histórico do comportamento da mídia convencional no país e resgatou exemplos de ação coordenada dos seus veículos, como no caso dos ataques recentes ao ministro Orlando Silva. “Após a queda do Orlando a mídia deu voz ao seu advogado, para defender a sua reputação(…). Quado ela quer, a mídia cria um clima de corrupção com um fato irrelevante por dia – como o caso da tapioca”, denunciou o jornalista.

Foto: Debora Teixeira / ClickFoz
Para Nassif, o papel que a blogosfera cumpriu rebatendo o discurso da mídia convencional sobre o caso Satiagraha foi um bom exemplo do seu potencial. “A mídia jogou seu poder para atacar a operação e defender Daniel Dantas e Gilmar Mendes. O contraponto foi na blogosfera, que respondeu, ponto por ponto, as inverdades levantadas pela mídia, com informações”. Para ele, a tendência é que sejam criados espaços de discussão e mediação do conjunto de informações que circulam na blogosfera, fortalecendo o papel das novas mídias de informar e combater a contra-informação veiculada pelas mídias convencionais.
publicado em 28 de outubro de 2011 às 12:12 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
Nesta quinta-feira (27), teve início o 1º Encontro Mundial de Blogueiros, em Foz do Iguaçu. A cerimônia de abertura aconteceu no mirante central da barragem de Itaipu, em confraternização que teve início às 19h. Ao todo, cerca de 400 participantes – estudantes, representantes de entidades do movimento social, jornalistas e, principalmente, blogueiros –estiveram presentes e puderam assistir a iluminação da barragem da maior empresa geradora de energia renovável do mundo.

Iluminação da barragem de Itaipu
Joaquim Palhares, diretor-presidente da Carta Maior, afirma que organizar um evento do porte do Encontro Mundial de Blogueiros é muito trabalhoso, pela importância dos nomes convidados. “A maior dificuldade é contornar os problemas de agenda das pessoas. Trouxemos jornalistas internacionais de peso e, por isso, muito requisitados, para todos os tipos de evento”, diz Palhares. De acordo com o jornalista, a relação política que ele já tinha com os jornalistas tornou os arranjos um pouco mais fáceis e, mesmo com algumas ausências, acredita ter fechado uma programação com muita gente importante.
Para Altamiro Borges, presidente do Barão de Itararé, a pluralidade do encontro se deve a dois aspectos: primeiro, o crescimento das novas mídias em todo o mundo, que atingiram um novo patamar após a Primavera Árabe, a revolta dos indignados, na Espanha, e o movimento de ocupação de Wall Street. Em segundo, a característica única do Brasil. “Mesmo com toda a diversidade que temos, conseguimos realizar dois encontros nacionais de blogueiros, que deram muita organicidade e horizontalidade para o movimento. Juntando o crescimento da blogosfera no mundo inteiro, à organicidade e diversidade do movimento no Brasil, resulta o Encontro Mundial de Blogueiros.

Altamiro Borges fala em cerimônia de abertura do evento
Representando a Itaipu Binacional – uma das patrocinadoras do evento – o superintendente de comunicação social da empresa, Gilmar Piola, ressalta a importância da atividade para Foz do Iguaçu e para a Itaipu. “Temos um bom histórico com os veículos de comunicação do que chamo de ‘exploração das mídias espontâneas’, que estão crescendo em influência e formação da opinião pública. Os nossos públicos de relacionamento buscam muita informação nesses meios alternativos. Esse encontro complementa, estabelece uma nova relação – estratégica, por parte da Itaipu, de Foz do Iguaçu e também da Destino Iguassu – , no relacionamento com esses novos formadores da opinião pública, além de representar um compromisso de Itaipu com esses segmentos de mídia alternativa”, afirma.
Piola ainda menciona a importância do evento para a imagem da cidade. Segundo ele, “é uma grande parceria para nós, que também ajuda a mudar a imagem de capa da revista Veja. Foz não é a capital da ‘muamba’, mas uma região que abriga mais de 72 etnias, recebe turistas de mais de 150 nacionalidades anualmente e tem atrativos turísticos interessantíssimos”. A ideia da Itaipu, de acordo com Piola, é integrar o evento à agenda anual da cidade.

Gilmar Piola, em cerimônia de abertura
Segundo o presidente da Federação dos Bancários da Bahia e de Sergipe, Emmanuel Souza de Jesus, o interesse principal do encontro é conectar a blogosfera com os movimentos sociais, para que as ações reverberem ainda mais na rede. “Ainda estamos caminhando nessa relação, principalmente os movimentos mais organizados, como o sindical. Mas ainda estamos longe do ideal. Precisamos que os movimentos mais periféricos, das pequenas cidades, das comunidades, também estejam em evidência. É um desafio muito grande”, afirma.
Apoiar o Encontro Mundial de Blogueiros é uma demonstração de como o governo paranaense pretende retomar a discussão da comunicação, segundo o secretário do setor no Paraná, Marcelo Cattani. “É impossível exercer um papel importante na sociedade paranaense, que é construir uma nova política de comunicação, não respeitando a força das redes, esse movimento que já está consolidado”, diz Cattani.
Os estudantes presentes destacaram a oportunidade de ter contato com blogueiros e jornalistas que são referência em suas formações. “Achei muito bacana encontrar pessoalmente o Ignacio Ramonet, o Luis Nassif, que são blogueiros que a gente lê e estuda”, comenta Gabriela Pereira, estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina. “O debate que espero ver aqui é sobre a informação sendo difundida por todos os meios, na Internet, em todas as direções de modo muito rápido”, afirma.
Yassine Ahmad Hijazi, do portal A Fronteira (que agrega notícias do mundo árabe e da América Latina), chama a atenção para a oportunidade de os povos e nações estreitarem relações no evento, que é uma das principais características da blogosfera. O peruano Jesus Ojeda, estudante de Ciência Política e Sociologia, na Universidade da Integração Latino-Americana (Unila), também destaca essa faceta do evento. “É muito enriquecedor entrar em contato com blogueiros de todas as partes do mundo. Os blogs são a voz dos povos, que não sai na grande imprensa, e o evento servirá para unificar essas pessoas”, opina Ojeda.
Em tom otimista, Altamiro Borges acredita que o Encontro Mundial de Blogueiros criará uma plataforma de unificação das novas mídias. “O evento é importante para a luta por democratização da comunicação e contra a censura. Um exemplo é o apoio do governo paranaense para que realizemos esse encontro, que é contraditório, pois ao mesmo tempo censura blogs. Creio que nessa troca, elegeremos algumas bandeiras que nos unificam e garantem unidade na diversidade” , encerra.

Pela primeira vez, iluminação da barragem foi transmitida online
publicado em 26 de outubro de 2011 às 18:58 na Encontro Mundial de Blogueiros, Notícias
Martín Becerra, professor da Universidad Nacional de Quilmes, em Buenos Aires, participará do Encontro Mundial de Blogueiros, em Foz do Iguaçu. Ele integra o painel “Experiências na América Latina”, no sábado (29), às 9h. O blogueiro argentino concedeu entrevista ao Portal Unisinos, na qual falou sobre a concentração dos meios de comunicação no continente. Para Becerra, todos os países sofrem esse processo, mas na América do Sul, principalmente, a situação é dramática.
Leia a entrevista abaixo, reproduzida do Portal Unisinos.
Por Márcia Junges e Graziela Wolfart/Tradução: Graziela Wolfart
IHU On-Line – Qual é a situação da concentração midiática na América Latina?
Martín Becerra – A primeira década do século XXI revela a consolidação do processo de concentração da mídia e do restante das indústrias infocomunicacionais na América Latina. A lógica comercial-financeira das operações das atividades infocomunicacionais conduz, a rigor, a processos de concentração em quase todo o planeta, mas a profundidade e a consolidação com que acontecem na América Latina são distintivas. Esta tendência acaba sobressalente se a observarmos a partir da necessidade de garantir a diversidade de vozes, fontes e atores para assim conseguir introduzir o pluralismo nos sistemas de meios democráticos vigentes nos países da região. De fato, nos últimos anos apareceram informes das Relatorias sobre Liberdade de Expressão da OEA e da ONU que enfatizam sua preocupação pelo tema, o qual se qualifica como “ameaça indireta” à liberdade de expressão. Na América Latina, registram-se altíssimas margens de concentração infocomunicacional, que superam os padrões considerados aceitáveis. Com efeito, de acordo com Albarran e Dimmick (1996), considera-se que a concentração existe e é alta, ao superar uma média de 50% do controle de um mercado por parte dos quatro primeiros operadores e cerca de 75% pelos oito primeiros operadores. Mas, na América Latina, os quatro primeiros operadores superam esses percentuais, e, em algumas ocasiões, apenas dois deles superam as estimativas de alta concentração estipulada para oito empresas (Fonte: Becerra e Mastrini, 2009).
IHU On-Line – Como essa concentração se reflete nos conteúdos veiculados pela mídia?
Martín Becerra – A concentração de meios tende à unificação da linha editorial. É difícil que em um mesmo grupo de comunicação se encontrem divergências profundas sobre temas que são sensíveis na linha editorial. Quando se trata de tomar partido em medidas importantes, é difícil que um mesmo grupo abrigue posições realmente diversas. A falta de diversidade de vozes e fontes informativas realmente diferentes é uma constante dos grupos concentrados de comunicação, cujo menu informativo está longe de ser plural. Os meios não costumam informar com equanimidade quando empresas do mesmo grupo lançam um produto no mercado, do mesmo modo que tampouco são desinteressadas as coberturas noticiosas quando são os competidores (em algum mercado) os que geram o lançamento. A concentração, além disso, vincula negócios do espetáculo (artistas exclusivos), do esporte (aquisição de direitos televisivos), da economia em geral (inclusão de entidades financeiras e bancárias) e da política (políticos convertidos em magnatas de meios ou sócios de grupos midiáticos) com áreas informativas, o que produz repercussões que alteram a pretendida “autonomia” dos meios. Portanto, a concentração conduz a uma redução das fontes informativas (que gera menor pluralidade de emissores), a uma relativa homogeneização dos gêneros e formatos de entretenimento (que implica que se padronizam gêneros e formatos, resignando diversidade de conteúdos), a uma predominância de estilos e temáticas e para a concomitante oclusão de temas e formatos nos meios de comunicação e no resto das atividades culturais.
IHU On-Line – A digitalização e midiatização emprestam que tipo de peculiaridades à concentração midiática?
Martín Becerra – A convergência tecnológica reforça a possibilidade de que um mesmo emissor concentre diferentes suportes de produção e emissão de conteúdos. Ou seja, que permite acelerar a tendência concentradora do setor da informação e da comunicação ao servir-se de potencialidades convergentes das tecnologias de produção, armazenamento, distribuição, comercialização e monitoramento de demandas no setor dos meios. Por sua vez, para aproveitar o potencial da convergência tecnológica, é preciso avançar no domínio de redes e de infraestruturas de alto custo, o que explica a tendência à convergência dos mercados de telecomunicações, de audiovisual e de informática. Na ausência de um Estado que intervenha com decisão, os atores corporativos mais concentrados são os que costumam tirar proveito desta convergência, e esse processo termina tornando robusta a concentração.
IHU On-Line – Há uma relação direta entre essa concentração e a estigmatização dos movimentos sociais, da pobreza, da mulher e das minorias em geral?
Martín Becerra – Sim, porque a concentração dos meios, com a consequente unificação de gêneros, tendências e fontes, está impulsionada pela necessidade de consolidar mercados de consumo. Por isso, os destinatários mais pobres ou minoritários, ou seja, os que não têm um impacto em termos de consumo, são estigmatizados e expulsos da agenda pública midiática, com exceção de sua inclusão em termos de ameaça (por exemplo, à segurança cidadã), ou em termos de marginalidade (com sua sequela de cândida aceitação do existente a partir do estereótipo do “inadaptado social”).
IHU On-Line – Como o senhor percebe o controle estatal e privado dos meios? Quais são os pontos positivos e negativos de cada um desses controles?
Martín Becerra – Na América Latina, há uma falta de tradição no controle estatal da regulação sobre os meios de comunicação, se comparamos com a situação da Europa ou da América do Norte. Na América Latina, ao contrário, o mito da “autorregulação” privada dos meios tem tido um sucesso considerável no imaginário, com os efeitos que hoje se advertem em matéria de descontrole das licenças, a discriminação no acesso à titularidade dos meios de comunicação e de outras indústrias culturais, a falta de pluralismo e a ausência de diversidade cultural. Os meios privados, logicamente, buscam otimizar seus ganhos e incrementar o lucro. Uma perspectiva democratizadora deveria orientar a ação do setor dos meios de comunicação à regulação equânime, pública, transparente e equitativa. A América Latina mantém uma tradicional debilidade dos poderes públicos para dispor regras de jogo equânimes que garantam o acesso dos diferentes setores sociais, políticos e econômicos à titularidade de licenças (cuja administração, legalmente, é realizada pelo Estado) de rádio e televisão.
IHU On-Line – Quais são os principais desafios da comunicação em nosso continente frente ao cenário de midiatização e crescente digitalização?
Martín Becerra – Considero que os avanços alcançados em alguns países a respeito da discriminação, que significaram, durante décadas, a ausência de políticas de fomento ao acesso equânime às licenças de rádio e de televisão, para consolidarem-se, deveriam se complementar com políticas de construção de serviços públicos – verdadeiramente públicos, ou seja, não-governamentais – audiovisuais; com critérios claros e democráticos de utilização do “dividendo digital”; com a disposição de fundos concursáveis para sustentar apoio econômico à produção de distintos setores sociais e culturais, sobretudo no cenário da digitalização; com a criação de autoridades regulamentadoras e controladoras das licenças que tenham caráter público (ou seja, não-governamental), o que permitiria garantir sua equidistância a respeito dos interesses contrapostos de diferentes atores sociais, políticos e econômicos; com a regulação clara dos fundos que todos os Estados latino-americanos destinam para o financiamento dos meios de comunicação (via publicidade oficial, via perdão de dívidas, via extensão de licenças, entre outras ajudas particulares). Estas medidas requerem a participação e a permanente observação da sociedade, dado que sua implementação pode provocar a erosão de grandes interesses criados.
IHU On-Line – O senhor acredita que está ocorrendo na comunicação uma supervalorização da técnica, ao invés de se privilegiar o elemento humano?
Martín Becerra – Com efeito, a sobrevalorização técnica se verifica, por exemplo, na escolha do modelo de televisão digital que fizeram muitos dos governos de nossa região nos últimos três ou quatro anos, desatendendo os fatores sociais e culturais, mas enfocando quase exclusivamente uma discussão tecnológica. Na realidade, a tecnologia é uma maneira de fazer as coisas, é uma lógica de desenvolvimento de processos que são, ao mesmo tempo, sociais, organizativos, culturais, econômicos e políticos. Por isso, pensar no “fator humano” presumiria investir o tipo de comportamento, por exemplo, com televisão digital, e diagnosticar quais usos, necessidades e apropriações realizam os profissionais do audiovisual e depois, em função desses usos, quais as necessidades e apropriações para definir normas técnicas.
IHU On-Line – Em que medida essa postura reflete uma inversão de valores e uma característica da pós-modernidade?
Martín Becerra – Creio que o fetichismo da tecnologia é um traço moderno antes que pós-moderno e que remete a uma racionalidade técnica, brilhantemente analisada por Adorno e Horkheimer. Em todo caso, se for também um traço pós-moderno, se trataria de uma continuidade própria do universo conceitual da modernidade. Há linearidade a respeito, se bem que podem se apreciar mudanças na velocidade com a que se entronizam e se descartam as tecnologias, para serem substituídas por novos artefatos cuja vida útil será, também, breve. O certo é que a disseminação tecnológica conduz a uma saturação de fluxos informativos e de torrente de dados graças ao constante investimento tecnológico que exclui o “fator humano”. Por isso, quando se fala de brecha digital, se esquivam outras brechas, sociais, econômicas, culturais e políticas, que são as estruturas da brecha digital. Ainda que, certamente, a brecha digital também estrutura e condiciona as modalidades de organização das outras brechas no futuro.
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