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Após superar diversos obstáculos diplomáticos em uma verdadeira saga aérea, o avião militar mexicano que transportava Evo Morales aterrissou, na tarde desta terça-feira (12), no aeroporto internacional da Cidade do México. Acompanhado de seu vice-presidente, Álvaro García Linera, e de sua ministra da Saúde, Gabriela Montaño, Evo Morales desceu da aeronave e foi direto ao microfone. Em pleno aeroporto, Evo já deu indicativo de qual será seu papel durante o asilo político: denunciar o golpe, coordenar a resistência e, vivo, dar continuidade à luta do povo boliviano por igualdade e justiça social.

Por Felipe Bianchi

"Lamentavelmente, a Polícia e as Forças Armadas se somaram ao golpe. Nos últimos dias, queimaram tribunais eleitorais, atas e documentos das eleições. Queimaram sedes sindicais e casas de líderes políticos e sociais. Saquearam e queimaram a casa de minha irmã. Saquearam minha casa em Cochabamba e tentaram saquear uma outra casa, pequena, que tenho - meus vizinhos a protegeram, o que agradeço", relatou. Segundo o mandatário boliviano, que renunciou ao cargo dois dias atrás (10/11), tudo ocorreu com a vista grossa de quem deveria assegurar a paz e a ordem, além de "mentiras" e "descaramento" de prefeitos e governadores da oposição. "Faço um novo apelo para que não haja mais derramamento de sangue e enfrentamento", clama o líder índigena.

Álvaro García Linera e Evo Morales em pronunciamento transmitido pela teleSUR. Foto: Captura de tela

Ao explicar a aceitação da oferta de asilo por parte do México, Evo fez grave denúncia sobre os bastidores da cruzada para capturá-lo: "Sábado, dia 9 de novembro, quando chegávamos à Cochabamba, um membro da equipe de segurança do Exército me informou, me mostrou, para que eu mesmo pudesse ler, mensagens que tentavam suborná-los, para que me entregassem por 50 mil dólares". A direção do Movimiento Al Socialismo (MAS), força política liderada por Evo Morales e Álvaro García Linera, soltou um comunicado, também nesta terça (12), revelando que estava em curso um sofisticado plano de "magnicídio", visando a captura e o assassinato de Evo. O documento deixa claro que a decisão de Evo não foi de cunho individual, tendo passado pelo crivo coletivo do partido, ciente do grave risco ao qual seu líder estava exposto.

"Estamos muito agradecidos ao governo mexicano. O presidente do México [Andrés Manuel López Obrador] salvou nossa vida e a do povo boliviano. Irmãos e irmãs, governo mexicano, agradecemos muito a recepção. É importante estarmos com vida, o que nos permite seguir lutando com o nosso povo. Por isso, Marcelo Ebrard [chanceler mexicano, retratado na foto à esquerda], agradeço por me salvarem a vida.", diz.  

"Enquanto eu estiver vivo, seguimos na política. Enquanto tivermos vida, seguimos na luta", sentencia. "Estamos certos de que os povos do mundo têm todo o direito de lutar por sua libertação. Achei que tínhamos acabado com a discriminação, a opressão e a desigualdade, mas ressurgem grupos que não respeitam a vida e muito menos a pátria. Se algum delito cometi, é ser indígena. Se algum pecado cometi, ao ser presidente, foi termos implementado programas sociais para os mais humildes, buscando mais igualdade e mais justiça. Só haverá paz quando garantirmos a justiça social, disso estou mais convencido que nunca. Nosso delito, nosso pecado é sermos anti-imperialistas. Que o mundo inteiro fique sabendo: não é por este golpe que vou mudar ideologicamente".

Evo voltou a destacar o fato de que seu governo alcançou resultados extra-ordinários na redução da extrema pobreza e que os ataques partem de quem não aceita o "processo de câmbio", que tem como uma de suas principais bandeiras a distribuição de renda. "Isso que está passando em nosso país vai fortalecer a luta dos povos na Bolívia e, talvez, no mundo", opina.

A tragédia boliviana ensina com eloquência varias lições que nossos povos e as forças sociais e políticas populares devem aprender e gravar em suas consciências para sempre. Aqui, uma breve enumeração e prelúdio de um tratamento mais detalhado no futuro.

Primeiro: por mais que se administre de modo exemplar a economia como fez o governo de Evo, com crescimento, redistribuição, fluxo de investimentos e melhora de todos os indicadores macro e microeconômicos, a direita e o imperialismo jamais vão aceitar um governo que não se coloque a serviço de seus interesses.

Por Atilio Boron* / Traduzido por Gabriel Brito (Correio da Cidadania)

Segundo, há que estudar os manuais publicados por diversas agências dos Estados Unidos e seus porta-vozes disfarçados de acadêmicos ou jornalistas para poder perceber a tempo os sinais da ofensiva. Estes escritos invariavelmente ressaltam a necessidade de destroçar a reputação do líder popular, o que no jargão especializado se chama assassinato de reputação, qualificando-o de ladrão, corrupto, ditador ou ignorante.

Essa é a tarefa confiada a comunicadores sociais, autoproclamados “jornalistas independentes”, que do alto de seu controle quase monopólico dos meios de comunicação entorpecem o cérebro da população com tais difamações, acompanhadas, como no caso que nos ocupa, por mensagens de ódio dirigidas contra os povos originários e os pobres em geral.

Terceiro, cumprido o anterior, chega a hora da dirigência política e as elites econômicas pedirem uma “mudança”, “fim da ditadura” de Evo que, como escrevera há poucos dias o imprestável Vargas Llosa, é um “demagogo que quer se eternizar no poder”. Suponho que está brindando com champanhe em Madrid ao ver as imagens de hordas fascistas saqueando, incendiando, prendendo jornalistas em poste, rapando uma mulher prefeita e pintando-a, destruindo atas da última eleição para cumprir com a ordem de don Mario e liberar a Bolívia de um maligno demagogo. Menciono esta figura porque foi e é imoral porta-bandeiras deste ataque vil, esta traição sem limites, que crucifica lideranças populares, destrói a democracia e instala o reinado do terror a cargo dos bandos criminosos contratados para massacrar um povo digno que teve a ousadia de querer ser livre.

Quarto: entram em cena as “forças de segurança”. Neste caso estamos falando de instituições controladas por numerosas agências, militares e civis, do governo dos Estados Unidos. Essas treinam, armam, fazem exercícios conjuntos e as educam politicamente. Comprovei isso quando, por convite de Evo, inaugurei um curso sobre “Anti-imperialismo” para oficiais superiores das três armas. Nesta oportunidade fiquei impressionado com o grau de penetração das mais reacionárias consignas norte-americanas herdadas da época da Guerra Fria e pela indisfarçada irritação pelo fato de um indígena ser presidente do país.

O que fizeram essas “forças de segurança” foi sair de cena e deixar o campo livre para a descontrolada atuação das hordas fascistas – como as que atuam na Ucrânia, na Líbia, no Iraque, na Síria – para derrubar líderes incômodos ao império, e assim intimidar a população, a militância e as próprias figuras do governo. Ou seja, uma nova figura sociopolítica: golpismo militar “por omissão”, para bandos reacionários, recrutados e financiados pela direita, imporem sua lei. Uma vez que reina o terror e diante da incapacidade de se defender do governo, o desfecho era inevitável.

Quinto: a segurança e a ordem pública não deveriam jamais ter sido confiadas à polícia e ao exército na Bolívia, colonizadas pelo imperialismo e seus lacaios da direita local. Quando se lançou a ofensiva contra Evo optou-se por uma politica de apaziguamento e de não responder provocações dos fascistas.

Isso serviu para encorajá-los e acrescentar apostas: primeiro, exigiram recontagem; depois, denunciaram fraudes e pediram novas eleições; adiante, queriam fazê-las sem Evo; finalmente, ante sua relutância em aceitar a chantagem, semearam terror com a cumplicidade policial e militar e forçaram Evo a renunciar. De manual, tudo de manual. Aprenderemos as lições?

Atilio Boron é sociólogo argentino.

Na última quarta-feira (20/08), a Coalizão Direitos na Rede (CDR) participou de uma reunião com Júlio Semeghini, secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologias, Inovações e Comunicações (MCTIC), em Brasília (DF), onde foram debatidas propostas em relação ao cenário de transformações no marco regulatório do setor de telecomunicações.

Por Coalizão Direitos na Rede

A CDR apresentou alternativas à proposta do governo de antecipar o fim das concessões de telefonia pública por meio de alteração na Lei Geral de Telecomunicações (LGT), e indicou quais, em seu entendimento, devem ser os critérios para o investimento do saldo das obrigações das concessões de telefonia fixa. Semeghini recebeu bem as demandas e mostrou disposição e interesse comum em garantir a universalização do acesso à internet, premissa essencial à cidadania como estabelece o Marco Civil da Internet.

A organização, no entanto, reivindica o arquivamento do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 79/2016, o chamado “PL das Teles”. “A gente entende que esse projeto de lei não responde aos interesses públicos e responde apenas aos interesses privados de algumas grandes empresas. O secretário Semeghini se mostrou disposto a manter um diálogo frutífero no sentido de acelerar a universalização do acesso à internet, inclusive para as classes D e E”, relatou Marina Pita, associada do coletivo Intervozes, uma das mais de 30 entidades que compõe a Coalizão.

O PLC 79/2016 continua tramitando no Congresso Nacional, mas enfrenta questionamentos tanto da sociedade civil como do Tribunal de Contas da União (TCU). Uma das críticas é sobre a forma de cálculo de bens reversíveis — patrimônio púbico utilizado pelas empresas de telecomunicações pertencentes à União –, que o órgão avalia girar na casa de R$ 100 bilhões.

Para a Coalizão Direitos na Rede, é necessário discutir um novo marco regulatório para o setor, contanto que se leve em consideração a universalização do acesso à Internet. Como está, o PLC 79/2016 é insuficiente e não atende ao interesse público.

A entidade ainda expôs para o secretário do MCTIC a necessidade de que se avance nas iniciativas legislativas para a utilização dos recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que poderia encampar a demanda da universalização da Internet.

Em época de perseguição a jornalistas, principalmente por meio de haters na internet, conhecer as boas práticas em segurança digital é um diferencial importante para qualquer profissional que use a rede como meio de trabalho.

Consciente dessa necessidade, a Associação Profissão Jornalista decidiu oferecer aos colegas, às colegas jornalistas e a quem mais se interessar a Oficina de Segurança Digital para Jornalistas.

Em 6 horas de aprendizado, com alguma teoria e muita prática, os participantes desenvolverão habilidades e boas práticas em segurança digital, receberão orientações sobre as melhores ferramentas para comunicação com parceiros – considerando riscos, alternativas e opções – e terão, ao final, maior compreensão sobre segurança e capacidade de adotar práticas que reduzam os riscos, táticas de defesa e o uso de ferramentas digitais.

Você entenderá o que é vigilantismo, coleta massiva de dados e terá uma melhor compreensão das comunicações digitais em geral. Conhecerá as ferramentas seguras para fazer o seu trabalho e traçar estratégias adequadas de segurança para sua navegação.

Responsáveis

Gabriela Nardy e Carla Jancz são as responsáveis pela oficina.

Gabriela Nardy é mestranda em antropologia pela Unicamp, pesquisadora sobre feminismos e movimentos sociais e suas relações com as diversas formas de tecnologias. Ela integra o MariaLab, coletivo hacker feminista.

Carla Jancz – voluntária no MariaLab – é formada em Segurança da Informação, trabalha com segurança digital para o terceiro setor e com treinamento em tecnologias livres, cultura maker, redes autônomas, cultura hacker e criptografia.

Quando?

27 de abril (sábado), das 9h às 16h30, com intervalo para almoço.

Onde

Na sede do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454, metrô República, em São Paulo).

Quanto?

A inscrição custa R$ 220,00, à vista ou em 3 parcelas, pelo PagSeguro*. Para associados(as) da Associação Profissão Jornalista (APJor), o valor é de R$ 160,00 à vista. Ou em 4 parcelas sem acréscimo.

Por quê?

Segundo Gabriela Nardy e Carla Jancz, “a internet já foi vista como um espaço democrático, em que todas e todos teriam espaço para falar livremente. Hoje em dia as redes sociais são ambientes onde nos conectamos, divulgamos, trabalhamos, aprendemos, mas também onde somos perseguidos, vigiados e ameaçados. Essa falta de segurança se torna ainda mais marcante com a ascensão de governos pouco democráticos, que perseguem e ameaçam principalmente jornalistas e ativistas de pautas progressistas”.

* Pelo PagSeguro é possível parcelar em até 12 vezes, sendo que a partir da 4ª. Parcela, os encargos financeiros ficam por conta do participante. 

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Não deixe de nos contatar, caso tenha interesse. Inscreva-se e o nosso setor de Atendimento fará o contato.

Outras informações em Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou (11) 99-916-1297 (Vivo e WhatsApp).

Programação completa https://bit.ly/2Oio4gl

Do evento, que homenageia Paulo Freire e discute as pautas do retrocesso do governo Bolsonaro, ainda participam intelectuais e políticos como Manuela D’Ávila, Flávio Dino, Guilheme Wisnik, Eduardo Fagnani, Sabrina Fernandes, João Sicsú e a reitora da PUC-SP, Maria Amália Andery. Centenas de títulos de 34 editoras terão descontos de até 50%

O educador, pedagogo e filósofo Paulo Freire é o homenageado desta edição, que tem a Educação e o governo Bolsonaro no centro dos debates. “Educação ou barbárie: a volta à Idade Média?”, “Do tráfico à milícia: o estado paralelo que mata Marielles todos os dias” e “Imprensa: a hora da autocrítica?” são algumas das mesas. Serão discutidos ainda opressão da mulher, resistência antifascista, hegemonia cultural e restauração conservadora na América Latina.

Confira mais informações sobre o Curso "O pensamento de Paulo Freire", oferecido pelo V Salão do Livro Político

Entre os debatedores do campo político estão o ex-ministro Zé Dirceu (preso após julgamento em segunda instância semana passada, ele aguarda recurso no STJ e julgamento de Habeas Corpus no STF), o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, o governador do Maranhão, Flávio Dino, a ex-deputada Manuela D’Ávila, o deputado Carlos Giannazi e as deputadas Talíria Petrone e Erica Malunguinho.

Da academia, participam, entre muitos outros amplamente reconhecidos, Luiz Eduardo Soares (especialista em segurança), Guilherme Wisnik, Leda Paulani, Flávia Birolli, Eduardo Fagnani, João Sicsú, Sabrina Fernandes, Peter Pál Pelbart e a reitora Maria Amália Andery, da PUC-SP.
Jornalistas progressistas também estarão nas mesas: Natália Viana (Agência Pública), Carla Jimenez (El Pais), Eleonora de Lucena (Tutameia) e Laura Capriglione (Jornalistas Livres).

A programação ainda inclui atividades culturais: curso sobre a relevância e atualidade de Paulo Freire (com Sonia Couto), aula-teatro Maria, ainda com a temática freiriana (com Ana Saul), apresentações dos grupos artísticos Slam da Guilhermina, Arlequins (peça O Capital), Quando Quebra e Queima e Cabaré Feminista.

Sobre o Salão 

Iniciativa de um grupo de editoras independentes de grandes grupos empresariais em parceria com a PUC-SP, o Salão do Livro Político tem como objetivo fortalecer as editoras, aumentar a visibilidade de suas obras e incentivar as vendas e a leitura de livros políticos, que representam atualmente em torno de 2,5% do total de obras publicadas por ano no Brasil (sociologia, filosofia e economia). O Salão recebeu cerca de 3,5 mil visitantes nas últimas edições e, entre os convidados, intelectuais e personalidades prestigiadas globalmente, como o escritor cubano Leonardo Padura, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, o cientista político alemão, biógrafo de Karl Marx, Michael Heinrich, Marilena Chauí, Dilma Rousseff, José Genoíno.

 
V Salão do Livro Político
27 a 30 de maio, das 10h às 22h.
Tuca PUC-SP (Rua Monte Alegre, 1024, São Paulo, SP).
Facebook salaodolivropolitico      Intagram salaodolivropolitico      site salaodolivropolitico

Promoção e realização: Alameda, Anita Garibaldi, Autonomia Literária, Boitempo, EDUC, Geração, Veneta.

 

O cerco fascista imposto pelo governo Bolsonaro ao campo da cultura será tema de debate no dia 7 de maio, em São Paulo. A atividade acontece no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454, 8º andar, próximo ao metrô República), a partir das 19h, com transmissão ao vivo pela página da entidade.

O Barão recebe um timaço para conduzir o bate-papo, que abordará os ataques do governo e o clima de caça às bruxas instaurado no setor:

  • Sérgio Mamberti, ator, dramaturgo, ex-secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e integrante do Conselho Consultivo do Barão de Itararé;
  • Eliane Caffé, roteirista e diretora de filmes como Era o Hotel Cambridge (2017);
  • Tadeu di Pietro, ator, diretor e produtor cultural

Inscrições

A participação é gratuita, mas as vagas são limitadas. Garanta o seu lugar preenchendo o formulário abaixo:

 

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz