Eventos do Barão

Setembro 2022
S D
1 2 3 4
5 6 7 8 9 10 11
12 13 14 15 16 17 18
19 20 21 22 23 24 25
26 27 28 29 30

+

Jornalistas da mídia alternativa de todo o continente que virão ao Brasil para cobrir as eleições contarão com estrutura e cooperação jornalística oferecidas por organizações em São Paulo. A parceria entre a agência ComunicaSul, o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e a Diálogos do Sul oferece opções de espaços para trabalho, além de apoio com pautas e fontes visando alimentar a América Latina com informação e análises de qualidade sobre o que está em disputa nas eleições de 2022.

[Versión en castellano disponible al fin de la página]

A proposta surgiu da necessidade de veículos independentes contarem com apoio logístico para romper o cerco informativo imposto pelos barões da mídia hegemônica e corporativa no continente.

A eleição brasileira e a possível vitória progressista serão determinantes para o futuro da América Latina, sobretudo no que se refere às políticas de integração regionais e de construção de programas conjuntos de desenvolvimento e retomada econômica pós-pandemia.

O suporte visa, além de fornecer pontos de apoio para o trabalho, facilitar o acesso às pautas vinculadas ao projeto democrático e popular de reconstrução do Brasil pós-eleição e à agenda comum, focada em desenvolvimento, soberania e integração regional — o que passa pela derrota do bolsonarismo e das culturas fascista e patriarcal.

Já está confirmada a participação de comunicadoras e comunicadores dos seguintes veículos: Marcha; Nodal - Notícias de América Latina y el Caribe; Tiempo Argentino; Mate; Periódico Pausa; Agencia Latinoamericana de Información (ALAI) e LatFem - Periodismo Feminista.

Visitantes internacionais que tiverem interesse na iniciativa contarão com duas bases de trabalho na capital paulista:

  1. Sede do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. O espaço conta com conexão de Internet, redação, salas de reunião, banheiros e auditório;
  2. Sol y Sombra, bar com temática latino-americanista que se consolidou como ponto de encontro da esquerda na capital paulista. Além de opção de cultura e lazer para as visitas que participarão da iniciativa, também dispõe de conexão de Internet e espaço para trabalhar.
  3. Sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de S. Paulo. Localizado no centro da cidade, oferece computadores, tomadas, conexão de Internet e banheiros aos finais de semana.

Também haverá a opção de hospedagem solidária, com valor simbólico, para quem precisar. Basta mencionar a necessidade no formulário de inscrição abaixo.

Como participar

Para participar da iniciativa, é necessário realizar inscrição especificando o veículo que representa e o país do qual é proveniente. Após a aprovação, a pessoa será incluída em um grupo de mensageria instantânea para acompanhar toda a programação sugerida pela organização da rede.

Preencha o formulário ao fim da página ou clicando aqui:

Como ajudar

Para contribuir financeiramente com esta iniciativa, é possível doar qualquer valor via PIX. Toda a verba arrecadada será destinada a quitar gastos como alimentação e transporte - estão previstas a realização de pautas na periferia de São Paulo, com viagens longas e em grandes grupos, nas quais os jornalistas internacionais terão a oportunidade de conversar e entrevistar os moradores dessas regiões. As colaborações também ajudam a cobrir despesas como a contratação de pacotes especiais de Internet. As organizações envolvidas na iniciativa agradecem desde já a quem se solidarizar!

Chave-pix: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

[VERSIÓN EN CASTELLANO]

Medios alternativos recibirán en San Pablo a periodistas internacionales para las elecciones en Brasil

Periodistas de medios alternativos e independientes del continente que viajarán a Brasil para la cobertura de las elecciones tendrán a su disposición estructura edilicia y cooperación periodística ofrecidas por organizaciones en San Pablo.

La parceria firmada entre Agência ComunicaSul, Centro de Estudos de Medios Alternativos Barão de Itararé y Diálogos do Sul, ofrece espacios para trabajar y apoyo a través de pautas y fuentes de información con el fin de alimentar a América Latina con análisis de calidad sobre lo que está en disputa en las elecciones de 2022.

La iniciativa se consolidó tras conocer la necesidad de apoyo logístico por parte de quienes integran medios independientes de la región y que pelean por romper el cerco informativo impuesto por las empresas hegemónicas de comunicación.

Las elecciones en Brasil y la posible victoria progresista serán determinantes para el futuro de América Latina, sobre todo en lo que se refiere a las políticas de integración regional y de construcción de programas de desarrollo conjunto y recuperación económica pospandemia.

Además de ofrecer puntos de apoyo para el laburo, el apoyo tiene como objetivo facilitar el acceso a las pautas vinculadas al proyecto democrático y popular de reconstrucción de Brasil y a la agenda común, con enfoque en el desarrollo, la soberanía y la integración regional - lo que pasa por derrotar al bolsonarismo y la cultura fascista y patriarcal.

Ya está confirmada la participación de comunicadoras y comunicadores de los siguientes medios: Marcha; Nodal - Notícias de América Latina y el Caribe; Tiempo Argentino; Mate; Periódico Pausa; Agencia Latinoamericana de Información (ALAI) e LatFem - Periodismo Feminista.

Visitantes internacionales que deseen formar parte de la red contarán con dos bases de trabajo en la capital paulista:

  1. La sede del Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, un espacio cuenta con conexión a internet, redacción, salas para reuniones, baños y auditório;
  2. Sol y Sombra, un bar temático latino-americanista que se ha consolidado como punto de encuentro de la izquierda en San Pablo. Ofrece opciones de cultura y gastronomía, además de un espacio para trabajo con conexión a internet grátis.
  3. La sed del Sindicato de Periodistas de San Pablo. Ubicado en el centro de la ciudad, el espacio ofrece Internet, enchufes, baños y estructura de trabajo para los fines de semana.

También hay una opción de hospedaje solidário valor simbólico mediante, para quienes necesiten. Basta especificar la necesidad al llenar el formulario debajo.

Cómo participar

Para sumarse a la iniciativa, es necesario inscribirse completando las informaciones como el medio que representa y el país de dónde proviene. Una vez aprobada, la persona formará parte de un grupo de mensajería instantánea para seguir toda la programación sugerida por la organización de la red, intercambiar ideas y solicitar informaciones.

 

Para o porta-voz do movimento Não mais Administradoras de Fundos de Pensão (NO+AFP), Luis Mesina, “o plebiscito sobre a nova Constituição chilena, no próximo dia 4 de setembro, deve restituir direitos sociais e trabalhistas retirados pela ditadura de Pinochet (1973-1990) e incorporados no novo país que se quer construir”. Nesta entrevista exclusiva, Mesina afirma que “esta é a razão da mídia invisibilizar o debate sobre a Constituinte”, porque “os poderosos compreendem que sem comunicação tuas propostas inexistem”. Querem esconder a trágica herança destes 40 anos, que “não apenas demonstrou ser um retumbante fracasso, como um assalto aos direitos de todos”. E exemplificou: “com a aplicação do decreto que privatizou a Previdência Social no Chile nos anos 80, voltamos praticamente à pré-história, sem direitos fundamentais”, condenando “97% da população a aposentadorias miseráveis” ao seguir “as orientações do Fundo Monetário Internacional e, sobretudo, do Banco Mundial”.

Por outro lado, explicou o veterano combatente, “mais de 65% das pensões e aposentadorias do Chile quem paga é o Estado aumentando imensamente o gasto público”, enquanto o cartel das AFPs se apropria de US$ 90 bilhões, injetados fora do país na especulação. “Das quatro AFPs que capturam o grosso da poupança dos trabalhadores chilenos, três são de capital estadunidense”. Mobilizando o país de Norte a Sul, Mesina defende que “a primeira tarefa que temos é votar no Aprovo, é garantir a vitória da nova Constituição”, porque “mais do que transferir trabalho acumulado, estamos transferindo vidas humanas”. 

Por Leonardo Wexell Severo I ComunicaSul

No marco da campanha pela nova Constituição há muitas pessoas que levantam cartazes dizendo “Aprovo ou Pinochet”. Quanta verdade há por detrás destas palavras?

Após 200 anos de libertação da colônia espanhola, o Chile é um dos poucos países da região em que pela primeira vez existe um processo constituinte em que a Constituição política foi escrita por delegados eleitos pelo povo. Além disso, é a primeira vez não só no Chile, como no mundo, que foi escrita com paridade de gênero, metade de mulheres e metade de homens. Isso é único. Some-se a isso a reserva dedicada a cadeiras de representação aos povos indígenas.

Portanto, em relação à composição de quem a escreveu, é qualitativamente inédita. A nova Carta Magna declara o Estado chileno social de direitos e reconhece sua composição plurinacional, o terceiro da região depois da Bolívia e do Equador. Reconhece as diferentes etnias com direitos como nação. O Estado segue sendo unitário, indivisível, mas reconhece sua plurinacionalidade, o que é também um passo qualitativo.

E mais, se restituem alguns direitos no mundo do trabalho que foram espezinhados durante 40 anos. Uma agressão que permitiu usos e abusos do setor empresarial, que transgrediu direitos fundamentais dos trabalhadores. A consequência disso é que após quatro décadas nosso país esteja entre um dos mais desiguais do planeta.

Mas havia toda uma propaganda dos neoliberais de que o Chile era um modelo a ser seguido.

Na verdade, o modelo econômico exportado e propagandeado para fora das suas fronteiras pelos neoliberais como exitoso foi feito sobre a base de uma grande mentira: a apropriação de uma enorme parcela do salário dos trabalhadores, injetado no mercado de capitais pelo assalto dos fundos de pensão. Eu diria que o Chile é o modelo mais claro do que é a privatização, não só de todos os direitos sociais, como da própria vida social do país.

O Chile tem privatizadas as rodovias que antes eram públicas, espaços construídos por nossos avós há mais de 50, 60 anos; tem privatizadas a saúde e a educação. O caso mais emblemático é o da Previdência, com consequências fatais para a terceira idade e extremamente daninhas para a própria questão de gênero. Esse foi o conjunto de situações que levaram ao estallido [levante popular] de 18 de outubro de 2019.

Atualmente, na Carta Fundamental que será submetida a plebiscito no dia 4 de setembro, estes direitos pretendem ser restituídos e incorporados no novo país que se quer construir.

Por isso o desafio é aprovar esta nova Constituição, que não é perfeita, mas que é um passo qualitativo para começar a reconfigurar nosso país. Ou teríamos a Constituição de Pinochet que, com seus mais de 40 anos, não apenas demonstrou ser um retumbante fracasso como um assalto aos direitos de todos os chilenos e chilenas. É este o dilema que está colocado.

Na luta pelo Aprovo à nova Constituição, o movimento NO+AFP reivindica a Seguridade Social como um direito constitucional

Na luta pela aprovação da nova Constituição vocês têm colocado a Seguridade Social como um direito constitucional. Qual a dimensão desta luta em um país em que 97% dos chilenos foram condenados a pensões e aposentadorias miseráveis?

A consagração de certos princípios que a própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) assinalou como fundamentais estão contidos na proposta da reforma constitucional que será submetida a referendo: a solidariedade, a suficiência, a integralidade, a unidade e a universalidade. E isso gera um novo marco, uma vez que aprovada a nova Constituição, qualquer reforma previdenciária terá de ser feita com base no respeito a estes princípios que se encontravam ausentes. Porque a Constituição consagra que deveriam ser administradas por órgãos públicos e hoje em dia são geridos pelas Administradoras de Fundos de Pensão (AFP), privadas; não reconhece os direitos ou princípios como a suficiência e a solidariedade, este é um sistema de capitalização individual. Ao contrário, ser solidário supõe a solidariedade geracional e intergeracional, entre homens e mulheres, pessoas sãs e enfermas e entre os que ganham mais e os que ganham menos.

Quer dizer restituir a solidariedade social como foi configurada em distintos países da Europa e da América Latina. Avanços que foram conquistas do movimento operário, melhoras obtidas ao longo dos anos, e que devem ser aprimorados.

“Com a aplicação do decreto que privatizou a Previdência Social no Chile nos anos 80, voltamos praticamente à pré-história, sem direitos fundamentais”

O que ocorreu no Chile foi que com a aplicação do famoso decreto lei que privatizou a Previdência Social nos anos 80, há 42 anos, voltamos praticamente à pré-história porque ficamos sem direitos fundamentais que havíamos ganho – e que deveriam ter sido corrigidos, evidentemente.

O argumento enganoso e típico da direita que procura se apropriar das nossas gigantescas poupanças é o famoso crescimento demográfico, o envelhecimento da população, um fato objetivo e real. Está caindo a taxa de natalidade e aumentando a expectativa de vida, que é algo importante que ocorra. Mas isso não se resolve com capitalização individual, se resolve com solidariedade, cobrando mais impostos dos que ganham mais. Porque se amanhã a sociedade passar a viver até os cem anos, obviamente precisaremos fazer alterações, mas há muitas estratégias para ampliar a captação de recursos como a redução da jornada, melhores condições de trabalho para que mais pessoas tenham emprego e estabilidade, mais justiça… E isso se traduz na proposta da nova Constituição que, sem dúvida alguma, é totalmente oposta a atual.

“Atualmente, mais de 65% das pensões e aposentadorias do Chile quem paga é o Estado. O gasto público segue aumentando em benefício do capital privado”

Me dizias que ao contrário do que propalam os neoliberais e a sua mídia, a capitalização aumenta o gasto público, citando Romênia, Polônia e Hungria como países que privatizaram a Previdência e tiveram de retornar ao sistema público.

Bom, este é o paradoxo, o mais gigantesco dos absurdos. Por que qual foi o argumento utilizado pela direita para privatizar a Previdência Social no Chile em 1980? Diziam que, a partir de então, o Estado já não teria de distribuir recursos públicos para o sistema de Seguridade Social, que dali pra frente cada um dos trabalhadores iria financiar a sua própria aposentadoria. Portanto, o Estado poderia liberar recursos para outras áreas sociais importantes como saúde, educação, moradia, etc.

E o que ocorreu? Atualmente, mais de 65% das pensões e aposentadorias quem paga é o Estado. O gasto público segue aumentando em benefício do capital privado como ocorreu nos países do Leste Europeu que desprivatizaram e tiveram de voltar atrás. Porque isso gera um gasto público gigantesco, que é inconcebível.

Tua denúncia é que grandes grupos econômicos, fundamentalmente estrangeiros, são os que manipulam poupanças e vidas.

No Chile existem sete Administradoras de Fundos de Pensão, sendo que quatro delas capturam o grosso das poupanças dos trabalhadores, três de capital estadunidense: MetLife, companhia de seguro dona da ProVida; Principal Financial, dona de Cuprum; e Prudential, dona de Habitat. Então temos três grandes companhias seguradoras impulsionando os fundos de investimento dos Estados Unidos e que têm aplicado no sistema financeiro fora do país quase a metade da economia total, cerca de US$ 90 bilhões. Isso é muito dinheiro e ainda mais para um país pequeno como o Chile. Estão investidos em instrumentos financeiros como ações e títulos de dívida no exterior. Para dizer mais claramente: uma parte importante da classe operária chilena e dos trabalhadores está destinando uma fração expressiva do seu salário, que deveria ser economizado para custear o seu melhor envelhecimento, que deveria retornar em qualidade de vida na sua aposentadoria, para financiar a expansão do capital dos países imperialistas. Isso é um completo absurdo, algo inexplicável.

“Das quatro AFPs que capturam o grosso da poupança dos trabalhadores chilenos, três são de capital estadunidense”

Porque nada justifica que o Chile, país que necessita de tantos investimentos em áreas tão importantes para decolar de seu subdesenvolvimento – e não seja um país dependente – tenha a humanidade de seus trabalhadores financiando a expansão do capital dos Estados Unidos e de países avançados. Isso é ridículo, uma burla, a expressão mais concreta da crise do capitalismo. Como é possível para os teóricos defensores deste modelo continuarem explicando esse fenômeno: a transferência de recursos dos países emergentes para os países ricos? Isso é a nova era do capitalismo financeiro. Mais do que transferir trabalho acumulado, estamos transferindo vidas humanas.

No passado se entregavam as grandes minas, as empresas estratégicas, hoje entregam nossas principais matérias-primas, que são as vidas humanas. Enquanto financiamos as grandes companhias dos Estados Unidos e da Europa, em nossos países falta muito e de tudo: moradia, transporte de qualidade, trens para interligar nossas cidades, e que deveriam ser um investimento importantíssimo no caso chileno.

No entanto não se investe aí porque os grandes capitais que capturam nossas economias, que capturam nossas poupanças, preferem investir rapidamente no sistema financeiro. Investem aí porque a rentabilidade proporcionada pela especulação é muito mais alta do que no setor produtivo, do que na economia real – que gera salário, empregos e desconcentra renda.

Neste momento, qual o espaço que esta agenda desenvolvimentista, vinculada à aprovação da nova Constituição, está tendo na mídia?

A verdade é um pouco trágica. Não temos praticamente nenhuma possibilidade de poder debater estes temas que estamos conversando nos meios de comunicação chilenos. Durante os três anos depois que o movimento NO+AFP saiu às ruas tivemos muita cobertura e fomos chamados praticamente todos os dias para dar entrevistas. Mas cerca de dois anos atrás passou a ser zero a possibilidade, há uma campanha de invisibilidade total. Os poderosos compreendem que sem comunicação tuas propostas inexistem. Sendo assim, não existimos, nem campo fértil para novas ideias. Ficam excluídos do debate os grandes temas: a Constituição, a Seguridade Social e o que acontece com a poupança dos trabalhadores, que é o mais determinante do país.

Então qual é a discussão que toma a opinião pública? É que se aumentamos um percentual na cobrança do sistema previdenciário tantos porcento podem vir a ser partilhados solidariamente, outro tanto pode ser destinado à capitalização individual… Seguimos repetindo a velha lógica, o debate fica restrito à sua pauta.

“A mídia invisibiliza os danos sofridos pelos países do Leste Europeu que haviam seguido as orientações do FMI e do Banco Mundial: a multiplicação de miseráveis”

Não se discute o que ocorreu nos países do Leste Europeu que desprivatizaram o sistema depois que seguiram as orientações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e, sobretudo, do Banco Mundial. Aqueles países logo viram que a privatização gerou um aumento dos gastos públicos, uma concentração descomunal da propriedade em poucas mãos e a multiplicação de miseráveis. Por isso acabaram com esse sistema. Simplesmente ocultam, não discutem.

Então a NO+AFP, que foi um movimento importante no país, que gerou a explosão social chilena, o levante de 18 de outubro, vem sendo absolutamente invisibilizado. Agora estão empenhados em esconder o debate sobre a Constituinte, que não se trata de aprovar ou rechaçar, mas do que tem por detrás, do seu significado para o desenvolvimento do país. Porque a nova Constituição não resolverá nossos problemas de forma automática. Não é pelo fato de aprová-la que teremos no outro dia Seguridade Social, Saúde pública, investimentos em moradia… Mas os conteúdos desse novo cenário que se abre depois da aprovação devem ser preenchidos por dirigentes dos movimentos sociais que comecem a dar substância ao processo.

A estratégia da direita contra a ex-Concertação, que governou o país [durante quatro administrações de 1990 a 2010] foi justamente esvaziar de conteúdos a luta política que seguia, buscando limitá-las, circunscrevê-las às questões mais superficiais, mas sempre, no final, abrindo mão de recursos do Estado para seguir subsidiando e financiando operações do campo privado sem nenhuma contemplação, um verdadeiro saque do país.

Além disso, nos enfrentamos com algo grave, com uma esquerda absolutamente carente de ideias, de força e convicção para defender os direitos e interesses dos nossos povos, que capitula, que se mostra ausente. É preciso reflexão sobre os grandes temas que dizem respeito ao planeta, à mudança tecnológica, ao sistema financeiro, não podemos ceder e nos acomodar. Mais do que nunca precisamos de uma esquerda com firmeza e formação para que não haja vacilação em defender propostas e propor grandes projetos políticos, econômicos e sociais de transformação.

Nesta reta final da campanha pelo Aprovo como os movimentos sociais têm feito para levar sua palavra às ruas?

Está sendo uma luta muito difícil porque não contamos com os recursos nem com os meios de comunicação. Mas os movimentos sociais contam com algo que eles não têm: a força moral, a capacidade de sensibilizar a potência da solidariedade, ingredientes que são suficientes para gerar uma resistência.

Não é tampouco uma relação causa-efeito, sabemos que dependerá ainda de vários fatores. Estamos viajando agora para o Norte e o Sul, contando com nossos modestos recursos, para aglutinar, potencializar e organizar as pessoas.

A primeira tarefa que temos no dia 4 de setembro é votar no Aprovo, é garantir a vitória da nova Constituição, porque uma derrota geraria um golpe moral muito grande à cidadania. Então a primeira questão é a aprovação da nova Constituição. Temos um novo governo [do presidente Gabriel Boric] que chegou prometendo restituir direitos e estamos pressionando para que materialize essas reformas. Estamos convencidos de que precisamos ganhar e é para isso que dedicamos o melhor das nossas forças. O Chile e seu povo precisam.

O anúncio da compra do Twitter pelo bilionário norte-americano Elon Musk trouxe um misto de tristeza e revolta para quem luta contra as fake news e uma alegria incontida para a extrema-direita em todo o mundo. Mas é preciso uma análise que vá além da dicotomia e dos 280 caracteres.

A partir das declarações do próprio Elon Musk surgem pelo menos algumas motivações para a compra e uma provável mudança na curadoria de conteúdo dessa plataforma.

Por Renata Mielli* e Gustavo Alves**

Esse pressuposto é fundamental para entender porque um bilionário que não tem nenhuma atuação nas plataformas de tecnologia resolveu investir US$ 43 bilhões numa empresa avaliada em pouco mais de US$ 38 bilhões e que no ano passado registrou um prejuízo líquido de US$ 221 milhões.

A primeira constatação é que ele comprou a empresa para acabar com o pouco de conquistas que a sociedade obteve no processo recente de pressão para que as Big Techs desenvolvessem algum contrapeso para reduzir a disseminação de desinformação e discurso de ódio.

Isso escamoteado pelo argumento da defesa fundamentalista da “liberdade de expressão”, vista como um direito absoluto e que inclusive se sobrepõe a outros direitos. Mas é preciso enfrentar essa retórica oportunista e não ficar na defensiva para afirmar que não existem direitos absolutos, que estabelecer limites para o exercício desta liberdade é tão fundamental quanto a sua própria existência. Não cabe na liberdade de expressão, por exemplo, racismo, homofobia, apologia à morte ou aniquilação de grupos sociais, discursos que atentem contra a vida. Nada disso é opinião que possa ser livremente expressada. Nem em espaços privados como círculos de amigos ou familiares, muito menos em ambientes nos quais se realiza o debate público, como no caso das Plataformas de Redes Sociais.

Por isso, quem defende - como Musk, que o Twitter e outras plataformas sejam "arenas livres", na prática estão colocando em risco as poucas conquistas que a sociedade conseguiu avançar no debate sobre a necessidade de haver mais regras sobre a atividade dessas plataformas, como o reconhecimento tímido do papel deletério da amplificação algorítmica pelas plataformas.

Sob pressão da sociedade, o Twitter patrocinou um estudo para entender qual a possibilidade de seu algoritmo valorizar ou impulsionar uma determinada ideologia política e embora o Twitter tenha divulgado as descobertas da pesquisa em outubro de 2021, só agora o estudo foi publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences, publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos), após ter sido revisado por outros cientistas.

O estudo analisou uma amostra de 4% de todos os usuários do Twitter que foram expostos ao algoritmo (mais de 46 milhões) e também analisou um grupo de controle de 11 milhões de usuários que nunca receberam tweets recomendados automaticamente em sua timeline.

A face visível da ação do algoritmo do Twitter é a exposição entre as postagens das contas que você segue, tweets marcados como “você pode gostar”.  Ou seja, o algoritmo está recomendando conteúdo para você.

Isso é feito usando os dados da sua atividade anterior na plataforma, como os tweets que você curtiu ou retuitou. Uma equação estatística aplicada a estes dados lastreia o “aprendizado de máquina”. Assim o computador, em tese, aprende automaticamente com as preferências do usuário e aplica isso a dados que o sistema não viu antes.

Mas existe um fantasma presente nessas equações: o viés. Que segundo esse estudo reforça preconceitos humanos e amplificou os discursos de “direita”.

O estudo analisou o efeito de “amplificação algorítmica” em tweets de 3.634 políticos eleitos de sete países com grande base de usuários no Twitter: EUA, Japão, Reino Unido, França, Espanha, Canadá e Alemanha.

A pesquisa mostrou que em seis dos sete países (a Alemanha foi a exceção), o algoritmo favoreceu significativamente a amplificação de tweets de fontes politicamente inclinadas à direita.

No Canadá por exemplo, os tweets dos liberais foram amplificados em 43%, contra os dos conservadores em 167% e no Reino Unido os tweets dos trabalhistas foram amplificados em 112%, enquanto os conservadores foram amplificados em 176%.

Outro aspecto revelado pelo estudo foi amplificação algorítmica de notícias políticas. O estudo analisou a amplificação algorítmica de 6,2 milhões de notícias políticas compartilhadas nos EUA. E chegou à conclusão que a amplificação das notícias também segue o mesmo padrão.

Ou seja, há uma exposição maior dos conteúdos de direita, fake news e desinformação. 

Esse estudo só foi realizado graças a intensa cobrança da sociedade e após a tentativa de invasão do Congresso americano pela turba fascista alimentada por Trump.

Pois bem, quando se começa a vislumbrar a chance de se entender como os algoritmos alimentam a disseminação de desinformação e discurso de ódio, eis que surge Elon Musk.

Musk é mais um expoente dos fundamentalistas da liberdade de expressão. Para ele, não deve haver limites, o que significa que não deve haver qualquer tipo de moderação sobre o que se diz nas redes sociais. Outro defensor dessa tese é o presidente Bolsonaro.

Segundo Musk, ele quer transformar o Twitter numa "arena de livre discurso".

Ele afirma que irá democratizar o Twitter apostando na abertura do código fonte (a programação interna do Twitter) para que os mecanismos de operação sejam conhecidos e explorados por programadores.

Uma promessa vazia cheirando a “Ouro de Tolo” feita pela mesma pessoa que usou sua conta para atacar pessoas transgêneros e as políticas de combate à transmissão da Covid-19.

A liberdade de expressão tem sido usada - de forma tão indevida, oportunista e equivocada - por expoentes da extrema direita, bilionários e representantes do grande capital. A economia atual é dinamizada pelo modelo de negócios que usa o discurso como mobilizador da atenção.

E o que chama mais atenção é o discurso de ódio, é o preconceito, é a polarização social baseada em grupos que se comportam como torcedores raivosos e não como cidadãos que discutem temas de interesse público e social.

Somos todos sugados pela força centrípeta dos estímulos incessantes provocados pelas redes de alienação e agimos como autômatos reproduzindo, curtindo, compartilhando conteúdos que reforçam a visão do meu “time”, grupo e dos meus pré-conceitos.

Nesse processo, monetizamos toda a economia assentada nas plataformas. Vendemos nosso olhar, nosso corpo e alma e compramos produtos, serviços e ideias, sem qualquer reflexão. Ajudamos a curto circuitar a esfera pública e a desintegrar qualquer possibilidade democrática.

O princípio da inimputabilidade do intermediário, tão importante para o ecossistema da internet, não pode ser confundido com ausência de compromisso e responsabilidade das plataformas com o debate público.

Por isso, a regulação das plataformas de rede sociais, das Big Techs, a partir de amplo debate público é urgente e indispensável. Musk comprou o Twitter, e pode conduzir esta rede a ser um ambiente de afronta a direitos humanos fundamentais e de menosprezo com a democracia.

Mais do que nunca devemos retomar o debate sobre o #PL2630 e reforçar nele todos os elementos que dizem respeito diretamente as obrigações e regras para que as Big Techs atuem no Brasil.

É mais urgente do que nunca que tenhamos uma legislação que regule as atividades desta e de outras plataformas no Brasil, que as obrigue a cumprir os compromissos expressos em nossa Carta Constitucional. O dinheiro pode comprar quase tudo, mas não podemos deixar que ele compre também nossa soberania, a proteção à nossa democracia e esfera pública.

*Renata Mielli – Jornalista, Doutoranda no Programa de Ciências da Comunicação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM-ECA-USP), integrante da Coalizão Direitos na Rede.

**Gustavo Alves – Jornalista, webdesigner e programador, estudante de Ciência de Dados na USP/Esalq.

Em fase final de debate na Câmara dos Deputados, o PL 2630/2020, que acabou apelidado de PL das Fake News, sofre onda de ataques com conteúdos de desinformação. Facebook, Google e cia temem a aprovação de medidas que vão impor transparência às suas atividades e outras regras para a sua atuação no país.

Desde que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, reiterou que o tema é prioridade na agenda de deliberações da Casa, as empresas resolveram subir o tom e partir para o vale tudo, na tentativa de alterar ou até impedir a aprovação da proposta. As empresas usam o seu poder de mercado, e espaços privilegiados de suas plataformas para fazer a campanha contra um projeto de lei no país, o que é gravíssimo! 

Mas o que elas temem? O que as desagrada tanto?

Por Renata Mielli*

Medo da regulação

Nos anos 90, início dos anos 2000, prevalecia uma visão ufanista de que a internet representaria um mundo de liberdade, de que ela seria um território livre: livre de regulação do estado, livre de fronteiras, livre de regras, onde todos podem construir seus negócios, suas formas de comunicação e expressão. 

Essa ideia de ausência de regras foi muito conveniente para o poder econômico que se ergueu no Vale do Silício. As grandes empresas de tecnologia (Big Techs) se apropriaram desse discurso para impulsionar seus modelos de negócios e erigir um novo mercado monopolista dominado pelas empresas Gafam, acrônimo para Google, Amazon, Facebook e Apple e Microsoft.

A partir do escândalo Cambridge Analityca, das denúncias da sociedade civil e do alerta de pesquisadores muitos países passaram a discutir legislações para regular essas empresas. Há debates sobre obrigações de transparência, regras para moderação de conteúdos, combate ao discurso de ódio, enfrentamento à desinformação, debates sobre direito autoral e medidas econômicas e tributárias.

Em todos os países que enfrentaram essa agenda, as Big Techs usaram seu poder para tentar impedir que leis fossem aprovadas e aplicadas. Fizeram de tudo: campanhas baseadas em distorção de informações e dados, e até ameaças de deixar de ofertar seus serviços. Isso aconteceu na Austrália, na Espanha, na França e estão acontecendo agora no Brasil.

Em 03 de março, o Facebook veiculou propaganda em jornais de grande circulação nacional com o título: O PL das Fake News deveria combater Fake News. E não a lanchonete do seu bairro. No dia 11, foi a vez do Google soltar uma nota dizendo que se aprovado, o PL vai modificar a internet como você conhece. No dia 14, o Google colocou na sua página inicial, um link para a nota, de forma que todos os usuários que fizeram uma busca neste dia entraram em contato com a visão alarmista da empresa sobre o projeto. Além disso, passou a circular conteúdo publicitário do Google em outras plataformas com o mesmo conteúdo, que utiliza a retórica do medo, mecanismo largamente usado para estruturar conteúdos de desinformação e manipular a opinião pública.

Sobre o que trata o PL 2630

Afinal, será que o PL 2630 vai prejudicar a lanchonete do seu bairro? Será que ele vai mudar a internet que a gente conhece? Para responder essas perguntas, sem adjetivos, temos que conhecer o que de fato diz o projeto, que está sendo discutido desde maio de 2020.

Ele ganhou o apelido de PL de Fake News no início de sua tramitação. Na sua primeira versão, havia um artigo que tentava conceituar desinformação, que sofreu muitas críticas por trazer riscos à liberdade de expressão: definir numa lei que conteúdo seria classificado como fake News ou não é muito perigoso. Por isso, este ponto acabou caindo, e o texto que aguarda votação no plenário da Câmara não traz, em nenhum dos seus 42 artigos, o termo fake news.

Então, qual o escopo do projeto e porque ele continuou sendo chamado de PL de Fake News? O PL 2630 dispõe sobre a criação de uma Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Com base neste tripé, estrutura um elenco de obrigações, regras e mecanismos de governança para enfrentar o abuso do poder econômico nas redes, permitindo aos cidadãos e aos órgãos públicos identificar conteúdos de publicidade e impulsionados, saber o montante e a origem de recursos usados, por exemplo, para impulsionar conteúdos pregando o inexistente tratamento precoce contra a Covid-19 que tantos prejuízos trouxeram e ainda trazem à saúde.

O fenômeno da desinformação e seu impacto atual está relacionado às dinâmicas de circulação da informação no interior das plataformas. Ganham alcance e velocidade graças aos fatores de relevância considerados pelos algoritmos. Essas empresas, praticamente não fornecem dados sobre, por exemplo, quantos conteúdos são excluídos, com quais critérios, e porque contas são suspensas. Quantos dos que estão lendo este artigo já tiveram postagens excluídas ou rotuladas sem maiores explicações? E pior, os canais de contestação disponíveis para que possamos recorrer são praticamente inexistentes. Enquanto isso, muitas autoridades e pessoas com mandatos eletivos usam seus perfis e contas para espalhar a desinformação impunemente.

Ou seja, o que o projeto tenta é obrigar as Big Techs que prestam serviços para centenas de milhões de brasileiros prestem informações para que a sociedade compreenda como as fake news circulam e são patrocinadas, o que é fundamental para adotar medidas para combatê-las.

Outro ponto fundamental é uma seção inteiramente destinada a estabelecer responsabilidade diferenciada a agentes e contas de interesse público no uso das redes sociais. Afinal, quanto maior o poder que uma pessoa tem, maior a responsabilidade que ela carrega.

Também traz artigos para conter a viralização das fake news nos serviços de mensagem instantânea – aplicações do tipo WhatsApp e Telegram. Estabelece vedações à utilização de disparo automatizado de mensagens em massa, como as que foram largamente utilizadas na campanha de Jair Bolsonaro em 2018 e denunciadas pela jornalista Patrícia Campos Mello.

Ou seja, o projeto não proíbe publicidade nem impulsionamento, apenas cria regras para que a transparência seja possível. Nesse sentido, não há nada no PL que prejudique a lanchonete. Também não haverá uma mudança na internet que você conhece. Inclusive porque o PL não abrange toda a internet, ele se aplica apenas aos provedores de aplicação com mais de 10 milhões de usuários. Mas ele vai obrigar, sim, uma mudança da postura dessas empresas com relação aos usuários brasileiros. Mudanças que trarão mais segurança e empoderamento do usuário e da sociedade. E é isso que elas querem evitar.

As Big Techs se colocam veementemente contra transparência porque a opacidade é um fator intrínseco ao seu modelo de negócios das Big Techs. Dar transparência às suas operações é empoderar a sociedade para reduzir assimetrias provocadas pelo poder dessas empresas. Elas querem continuar ganhando bilhões de reais no país, atuando sem qualquer regra, sem ter que prestar contas e informações de suas atividades e, em alguns casos, nem responder às autoridades nacionais.

Amplo debate

O projeto 2630 está em debate na Câmara desde agosto de 2020. Ao longo desses quase dois anos de debate, foram organizados por iniciativa do atual relator, Dep. Orlando Silva, dois seminários, com a participação de centenas de especialistas. Organizações da sociedade civil, entidades acadêmicas, empresariais realizaram inúmeros eventos sobre o PL. O tema foi tratado ao longo deste período na mídia especializada, mas também em veículos jornalísticos. Ou seja, houve um amplo debate que resultou num aprofundamento de muitos dispositivos e amadurecimento do que é a espinha dorsal do projeto. A ofensiva atual das Big Techs nesta reta final é justamente uma reação a isso.

Há aspectos a serem melhorados e aperfeiçoados no projeto. Claro que sim. Um deles diz respeito ao artigo 38, que cria uma obrigação de remuneração de conteúdo jornalístico por parte das plataformas. Esse é um tema que não alcançou uma convergência maior. Vários setores, inclusive que têm posições diferentes sobre o PL, manifestam reservas com relação a esse dispositivo. Mas os motivos que geram resistência são distintos. As Big Techs têm se colocado contra qualquer iniciativa que surja na perspectiva de remunerar links. Inclusive ameaçaram acabar com sua operação em outros países (Austrália, Espanha por exemplo). Já, entidades do campo jornalístico, da mídia alternativa e dos direitos digitais que questionam esse tópico não o fazem por serem contra o debate em si, mas porque consideram que esta é uma discussão que precisa ser feita em outro contexto. Ela diz respeito a questões delicadas como definir o que é ou não conteúdo jornalístico, quem ao final tomaria essa decisão, como se daria essa remuneração, quem teria direito a ela, etc. Então, esse de fato é um tema sensível, para o qual ainda se busca alternativa melhor.

Mas essas melhorias e outras que ainda possam ser feitas no projeto precisam ser construídas a partir de um debate leal.

O que é importante que a sociedade compreenda é que após dois anos de debate, o projeto amealhou muitos consensos progressivos. Consenso visto não como unanimidade, mas construção de posição comum, principalmente em torno dos dispositivos envolvendo transparência, publicidade, desenho de um procedimento mais transparente sobre medidas de moderação com direito à contestação, para garantir um ambiente mais seguro e menos tóxico nas redes. E, claro, por se tratar de um tema de fronteira, dinâmico, há algumas questões que ainda ensejam dúvidas. O que precisa ser visto com naturalidade.

É fundamental desfazer as confusões que a campanha de desinformação das empresas estão trazendo. É preciso seguirmos atentos às discussões nas próximas semanas. E ter a tranquilidade de que essa lei é um dos passos que a sociedade brasileira dá na perspectiva de regular a atividade das plataformas e coibir a disseminação da desinformação. Outras leis certamente virão. E há também muitas iniciativas que precisam ser tomadas fora do âmbito legislativo. O que não podemos é ficarmos paralisados. Essas empresas não podem fazer terrorismo midiático e espalhar desinformação para continuar atuando numa terra sem lei.

*Renata Mielli é jornalista, doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, coordenadora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e integra a Coalizão Direitos na Rede.

A Fantástica Fábrica de Golpes será exibida on-line durante três dias em diversas mídias alternativas brasileiras. Produção anglo-brasileira, o documentário teve sua estreia em festivais internacionais a partir de dezembro passado. Nos cinemas, oito capitais já exibiram a película até o momento. O filme de Victor Fraga e Valney Nunes mergulha no histórico de golpes de Estado na América Latina e, a partir desse caldo, evidencia os mecanismos que culminaram na destituição da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016.

O Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé está entre as página que darão acesso gratuito ao filme neste final de semana. Outros parceiros da iniciativa são a Rede Brasil Atual, Mídia Ninja, Jornalistas Livres, Viomundo, Cafezinho, 247, DCM, Fórum, TVT, Saiba Mais, Mídia Livre, Prerrogativas, Construir Resistência, entre outros, também estarão. No canal aberto da TVT (44.4 para Grande São Paulo), as exibições serão no sábado (24), à 0h15, e domingo (25), às 20h.

A obra traça paralelos com episódios de ataques à democracia em vários países latinoamericanos e aborda com detalhes o processo da prisão política de Lula - circunstâncias que levaram à ascensão da extrema direita no país, resultando na eleição de Jair Bolsonaro. Entre os temas abordados estão o papel da mídia, a partidarização do Judiciário como costuma ocorrer nos chamados processos de lawfare, além da disseminação de desinformação e fake news.
 
“Deixamos no ar questões sobre a regulamentação da mídia, se isso seria censura, o que podemos fazer para romper esse ciclo de golpes de Estado que existe em toda a América Latina. Quase todos os países do continente são sujeitos a esse tipo de golpe, com exceção do México, provavelmente porque eles nunca tinha tido um governo de esquerda”, afirma Vitor Fraga, brasileiro radicado no Reino Unido, ao portal Papo de Cinema.
 
Assista gratuitamente entre os dias 23 e 25 de setembro pelo link abaixo:
 

Confira nota do MST sobre a atitude excludente da direção do MASP contra a realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras:

Viemos, através desta declaração, manifestar nossa indignação com a atitude da  direção do MASP que levou a impossibilidade de realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras. 

Como informa e-mail recebido das curadoras no dia 03/05/2022, sob alegações de  cunho burocrático e legalista que não se sustentam na efetiva realização do projeto, o  MASP inviabilizou a inserção de imagens do Acervo do MST, do Acervo João Zinclar e  de outros acervos que documentam a trajetória do MST e da luta pela Reforma Agrária  no Brasil. 

Somos testemunhas da forma ética e profissional com que as curadoras e os  acervos parceiros se empenharam na produção do projeto, em todas etapas e em acordo  com as demandas da instituição. 

Afirmamos nosso respeito e apoio às curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz,  responsáveis pelo Núcleo “Retomadas”, que diante da atitude do MASP decidiram não  participar da mostra, pois, como declaram: “Aceitar a exclusão das imagens das  retomadas em nome da permanência do núcleo nos levaria a ser desleais com os sujeitos  e movimentos envolvidos na nossa curadoria – contradição que não estamos dispostas a  negociar por não concordar com tamanha irresponsabilidade.” 

Como afirmam as curadoras: “O Retomadas é sobre a urgência de revermos as  éticas e políticas coloniais de nossos territórios, línguas, corpos, representações e museus.  Do nosso ponto de vista, mantê-lo à revelia da representação das próprias retomadas que  lhe dão título, argumento e sentido social nos levaria a ser anti-éticas em nome da ética,  excludentes em nome da inclusão, não-representativas em nome da representatividade,  expropriadoras em nome da não-apropriação, silenciadoras em nome da voz. Nos levaria,  por fim, a praticar a colonialidade contra a qual o núcleo se insurge”. 

O material selecionado pelas curadoras – imagens fotográficas, cartazes, cartilhas  e jornais impressos – são testemunhos da capacidade da classe trabalhadora de se  apresentar firme e altiva como sujeito de sua história, em todos os sentidos. 

Destacamos que ao inviabilizar a inserção da totalidade desses documentos o que  de fato se efetiva é a exclusão de um dos maiores movimentos sociais da história  contemporânea brasileira e latino-americana. Decisão que aponta para uma construção de  conhecimento histórico distorcido e comprometido com uma cultura deturpadora da real  complexidade da história política brasileira. Atitude que, no mínimo, está em desacordo  com a função social de uma instituição museológica que se apresenta em seu site com a  seguinte missão: “O MASP, Museu diverso, inclusivo e plural, tem a missão de  estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e  territórios, a partir das artes visuais. Para tanto, deve ampliar, preservar, pesquisar e  difundir seu acervo, bem como promover o encontro entre públicos e arte por meio de  experiências transformadoras e acolhedoras. ” 

Portanto, questionamos a atitude excludente da direção do MASP, apontamos a  gravidade deste tipo de construção de conhecimento que invisibiliza a luta da classe  trabalhadora e chamamos toda a comunidade cultural e entidades que representam as lutas  do povo brasileiro para este debate, que se reveste da urgência de não ceder à censura e  ao apagamento de nosso maior patrimônio: nossa capacidade de luta organizada para  construir um outro modelo de sociedade.  

Pátria Livre, Venceremos! 

Acervo João Zinclar 
Coletivo de Arquivo e Memória do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz